Petrobras, a Enron brasileira?

enepetr_enelogoMeu primeiro contato com o caso Enron ocorreu há 2 anos e, de lá pra cá, o revi várias vezes. Ele costuma ser usado em aulas de análise gráfica como exemplo de queda, em contabilidade como exemplo de fraude, em valuation como exemplo de precificação enganosa, e imagino que em aulas de direito como exemplo de execução financeira. Este último eu não estudei.
Desde então toda vez que vejo Petrobras no jornal, lembro da Enron.
Vou contar o que aconteceu com a Enron e você, com tudo que conhece sobre a Petrobras, poderá concluir se estou equivocado na minha comparação.

A Enron foi fundada nos Estados Unidos em 1968, falindo em 2001. Participou de diversos mercados, mas parte expressiva do faturamento provinha das commodities fósseis e produção de energia. Ganhou da Fortune os prêmios “America’s Most Innovative Company” e “100 Best Companies to Work for in America”, materialização do orgulho nacional. Como não é novidade, a alavancagem veio forte quando a Enron estreitou laços com o governo federal, na gestão Bush.
Fundada por caras inteligentes e muito bem financiados, a Enron estruturou-se como uma empresa promissora. A economia estava em franca expansão, criando demanda real pelos seus produtos. Nada mais natural, o mercado financeiro soube apreciar tantas vantagens. O dinheiro começou a entrar. Jorrava.
Como a percepção de risco era baixa e as expectativas eram altas, Enron era sinônimo de investimento seguro. Planos de aposentadoria para os funcionários, adquiridos voluntariamente e em massa, eram lastreados em ações da companhia. Fundos mútuos compravam o papel no atacado, pois não só era a oportunidade de se aposentar cedo, mas de aposentar-se rico. Rentável e seguro, puxa vida quem não ia querer.
Alguns analistas curiosos e a SEC (equivalente norte-americana à CVM tupiniquim) começaram a duvidar da robustez do castelo. Taxados de pessimistas, invejosos e anti-patriotas, foram marginalizados. Assim a ENE (o nome da ação da Enron na NYSE) foi recomendada para compra até as vésperas da desgraça, afinal, “a empresa é grande demais para quebrar“, “empresa ligada ao governo não quebra, senão todo mundo vai ficar sem luz“, e a clássica “ações são assim, compre na baixa e esqueça“.

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Enquanto o preço das ações rompia picos históricos, em oculto diretores e outros peixes grandes começaram a se desfazer de suas posições acionárias, porém abertamente recomendavam compra.
Naturalmente os preços começaram a cair, fazendo com que algumas pessoas passassem a ouvir com um pouco mais de atenção o que aqueles analistas, até então tidos como malucos, diziam sobre a irrealidade dos preços. As bases do castelo de cartas estavam vibrando, até que o dia D chegou.

Investigações deflagraram que os demonstrativos financeiros da Enron estavam maquiados. O paiol de sacanagens era farto, com contabilidade criativa (abusando do mark to market), transações comerciais com empresas de diretores e mesadinhas milionárias. Aqueles que deveriam fiscalizar também estavam comprados e, por isso, a auditoria contábil Arthur Andersen quase quebrou. Fraudes e ingerência cobraram seu preço de todos que estavam à volta, inocentes e culpados. O sonho virou pesadelo.

Os funcionários e pensionistas, que lastrearam suas aposentadorias nas ações da companhia, perderam tudo. Fornecedores ficaram sem receber e, consequentemente, seus funcionários também. Um dos diretores, J. Clifford Baxter, suicidou-se com um tiro na cabeça. Casa no chão, muitos começaram a abrir a boca; todos viram que a crise já estava enraizada havia muito tempo. As mesmas bocas que glorificavam a loucura agora exigiam o enjaulamento generalizado. Fim.

Esse é o resumo da Enron. Se você quer saber um pouco mais, recomendo o documentário “Enron: The Smartest Guys in the Room“.
Enfim, a Enron virou um case de fracasso, até que surgisse um escândalo à altura. Chegamos à Petrobras.

Quando falamos em avaliação de empresas, Aswath Damodaran é referência internacional. Em fevereiro ele publicou um artigo em seu blog mencionando o caso Petrobras, deflagrando o ciclo de destruição de valor da companhia, citando inclusive os casos de corrupção. Isso mostra que o caso não chamou atenção apenas da mídia usual, mas também dos especialistas.
A dimensão e profundidade do caso Petrobras trouxe dúvidas até mesmo sobre a possibilidade de uma empresa pública ter seu capital aberto em bolsa; não em relação aos méritos para a companhia ou o país, mas pela dificuldade — ou total impossibilidade — de estabelecer-se administração idônea em uma companhia cujo conselho de administração é majoritariamente constituído via indicações políticas.

Surge então a falácia de que o objetivo de uma empresa estatal não é ter sucesso administrativo — lucrar de forma sustentável — mas sim servir ao bem da população. Simplificando, o objetivo de uma empresa pública não seria favorecer seus acionistas, mas seus clientes, indiretamente associando lucro a dano. Mas, ora, quem são os acionistas de metade da Petrobras?
Seus maiores donos são BNDES, Governo Federal e Caixa. Caro leitor, observe que sob ambiente íntegro a prosperidade desses entes implicaria diretamente na sua prosperidade. Cômico de tão simples, mas na prática era assim que deveria funcionar.

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E impossível que uma empresa opere de forma sustentável, a longo prazo, em detrimento constante de seus acionistas. A Petrobras provou isso e certamente já entrou para a história pelo feito.
Não tenho dúvida que sua diretoria cedo ou tarde será renovada, e não faltarão esforços para afastar a imagem da corrupção. O que ficará não é a lembrança da Operação Lava Jato, das delações premiadas ou um balanço com baixas contábeis; será a eterna desconfiança sobre empresas controladas por políticos. Essa é a cicatriz que fica a posteridade.

Seria um exagero dizer que todas as empresas públicas sofrerão deságio perpétuo devido ao caso Petrobras? Somente a história dirá.

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Categorias: Economia

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