Uber e a Essência do Capitalismo

De forma simplista, o Uber é um aplicativo para dispositivos móveis que conecta motoristas autônomos e usuários em diversas cidades do mundo. Com alguns toques na tela você encontra um motorista próximo, pactua o preço e recebe a carona. Como o pagamento é efetuado através do aplicativo com seu cartão de crédito cadastrado, você pode até perder a carteira na balada — mas não o celular — e ainda assim chegar em casa.
Observe que o Uber não é empregador de motoristas, mas de programadores. O carro é do motorista, bem como a obrigação de manter o equipamento em ordem. A remuneração pelo uso do aplicativo é uma comissão de 20% do valor acordado entre motorista e passageiro, mais nada.

uber everyone private driver

Peço licença ao leitor, mas antes de tratar o tema central do tópico, regredirei alguns anos…

Os Primórdios

liberdade igualdade fraternidade

Na Revolução Francesa (1789-1799) os princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade derrubaram privilégios feudais, aristocráticos e religiosos.

Em tempos anteriores ao dinheiro, quando vizinhos trocavam batatas por galinhas, ninguém precisava de intermediários. Através dessa colaboração surgiram as comunidades, que se desenvolveram até tornarem-se feudos.
Com seus feudos populosos, senhores feudais tornavam-se homens cada vez mais poderosos  e sentiram-se no direito de intermediar — de forma remunerada e compulsória — todas as atividades da população.
Descontentes e percebendo que o custo-benefício de morar no feudo era baixo, seus habitantes foram para os burgos, onde cada um tomava conta de sua vida e sorte.
Os burgos então cresceram e seus moradores mais ilustres sentiram-se no direito de monopolizar e fornecer — de forma remunerada e compulsória — serviços comuns como segurança e saneamento.
Mesmo descontentes e percebendo que o custo-benefício de morar no burgo era baixo, as pessoas que lá residiam não tinham mais para onde ir, pois havia um burgo ao lado do outro. Precisaram então matar e morrer para defenderem seu direito mais fundamental, sua própria liberdade.
Aos poucos, então, os regimes centralizados foram saindo de cena, dando lugar a sistemas mais representativos e participativos. No entanto, mesmo travestida sob discursos virtuosos — de “proteger os mais pobres” a “zelar pelos valores da família” — a tendência da concentração de poder, que se evidenciou desde a antiguidade, ainda é percebida na sociedade contemporânea. Desde então esse é o grande trade-off político da humanidade: dar mais poder ao Estado ou mais liberdade às pessoas.

Mediadores “Modernos”

Inicia-se após a Segunda Guerra Mundial a tendência de automação do processo produtivo. Mais eficazes e produtivas, máquinas tomam o lugar de pessoas nas linhas de produção e no campo. Consequentemente muito valor é gerado, e naturalmente as pessoas imigram das regiões periféricas para morar e trabalhar nos grandes centros fabris. A densidade populacional aumenta assim como também cresce o poder de compra e a qualidade de vida, permitindo natalidade elevada com mortalidade baixa, caracterizando o Baby Boom.
Buscando competitividade em um cenário de crescimento econômico notável, pequenos produtores e provedores de serviços unem-se em agremiações com o propósito de viabilizar suas atividades através da soma de forças. Fortalecem-se as cooperativas, que já existiam e agora intensificam suas atividades.
O objetivo é nobre, mas assim como ocorreu em toda a história da humanidade, o poder buscará concentrar-se e regular atividades que outrora eram livres. Algumas dessas associações colocarão seus membros dentro do próprio Estado, aumentando ainda mais seu poder e influência em âmbito nacional.

Revolução Tecnológica

No pós-guerra a tecnologia invadiu as linhas de produção, mudando definitivamente a forma com que seus respectivos produtos eram fabricados. Até então um escopo bem definido, tecnologia aumentando a produtividade industrial.
A mesma tecnologia que invadiu a indústria iria, em meados de 1980, entrar nas residências. Equipamentos eletrônicos mais acessíveis começaram a popular casas de pessoas em todas as classes sociais, um processo que ainda está acontecendo diante dos nossos olhos. Nos anos 90, a fibra óptica toma lugar das conexões metálicas possibilitando meios de comunicação mais eficientes, trazendo internet para a casa de muitos e atribuindo novas funcionalidades aos equipamentos eletrônicos outrora difundidos.
Graças a todo esse progresso, atualmente 50 anos separam uma geração que mal sabe digitar de outra que aprendeu a escrever o nome em uma tela touchscreen. É no mínimo uma tolice achar que essas duas gerações iriam experimentar o mercado da mesma forma.
Em breve até mesmo as relações trabalhistas vão mudar, e é importante que estejamos preparados para isso.

Nasce a Economia Compartilhada, berço do Uber

Dois obstáculos que levaram os motoristas a juntarem-se às cooperativas eram alto capital de entrada e dificuldade de acesso aos clientes. A associação ajudava no financiamento do veículo, mantinha os pontos cadastrados junto à prefeitura — que cobrava sua taxa mensal para manter a calçada pintada de amarelo — e disponibilizava o rádio táxi. Dadas as limitações da época, era isso ou viver fadado ao anonimato.
Os tempos mudaram, e não foi só para os taxistas.

Com novos dispositivos tecnológicos, recursos que antes demandavam um capital de entrada elevadíssimo hoje são baratos ou gratuitos. Quem precisa de Correio se existe email? Quem precisa de rádio táxi se existe o Uber? Quem precisa se submeter a licitações de frequências de rádio-TV se existe o YouTube? Quem precisa de gravadoras se existe SoundCloud e Spotify? Será que os partidos vão continuar se matando por tempo de televisão daqui a 20 anos sendo que os eleitores ficam mais tempo no Facebook do que vendo televisão?

O fenômeno é impressionante por natureza, mas fica ainda mais interessante quando analisamos o que todos os casos acima têm em comum: a destruição do agente intermediário e a redução brutal do capital de entrada.
Se você tem criatividade e um celular que grava vídeos, com um upload de 25 segundos no YouTube é possível chamar a atenção do marketing mais poderoso do automobilismo mundial.
Candidato, ele tinha os maiores canais de televisão do mundo à sua disposição, mas foi no mesmo site onde o Marcos tocou pau no carrinho que Obama venceu uma eleição.

“Were it not for the Internet, Barack Obama would not be president. Were it not for the Internet, Barack Obama would not have been the nominee,” said Arianna Huffington, editor in chief of The Huffington Post.

Ora, se os meios de produção — broadcast de vídeo, divulgação de mídia, campanha política, rádio táxi — estão deixando de ser monopólio de seus detentores (burguesia) migrando gratuitamente para a mão dos provedores de serviço (proletariado), de forma gratuita e com qualidade, o que é isso? Exato, o sonho socialista se materializou através do mais puro capitalismo, livre mercado e iniciativa privada.

ask obama

Os Reacionários

Se o Uber me une aos clientes cobrando 20% de comissão, compararei esse custo com o que rádio táxi, prefeitura, sindicato, despachante, …, me custam mensalmente. Qual você acha que é mais barato?
E se eu ficar doente, o rádio táxi, prefeitura, sindicato, despachante, …, vão esperar eu melhorar para retornarem a mandar os boletos? Não. Mas o Uber vai, afinal, sem corrida não há 20%. Meu risco é menor.
O raciocínio acima parece trivial, talvez até seja, porém nem sempre é praticado. O status quo é forte.

Agora tente se imaginar como um político que foi eleito graças ao apoio do sindicato, da cooperativa. Pense como sendo o presidente da cooperativa, do sindicato, seus secretários, até o menino do xerox. Pense você como um taxista de 50 anos que não sabe o que é um iPhone. Pense também como secretário de transportes, perdendo aquela verba sagrada. Esses trabalhos virarão pó da noite para o dia, dando lugar a programadores e novos motoristas.

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” — Leon C. Megginson

A aristocracia pode ter sido útil por um tempo, mas quando deixou de ser não abriu mão de seu status de forma virtuosa. Regimes ditatoriais e colônias não foram desfeitos espontaneamente. De forma geral, a liberdade foi comprada com sangue ou com dinheiro.
Hoje vivemos tempos mais pacíficos. A cooperativa de táxi pode ter sua influência, mas não é a Coroa Inglesa. Portanto a previsão é uma briga burocrática, que tentará frear o avanço do Uber no tribunal, na via ideológica convencendo os taxistas de que esse é um mal a ser combatido, e claro, justificando todo esse reacionarismo através dos clássicos argumentos mentirosos de virtude como zelo pela qualidade e pela ordem.
Novamente na história temos o Estado sendo usado para defender o interesse particular em detrimento da liberdade.

A Revolução está sendo twittada

Doa a quem doer, a tendência existe e é fortíssima. Em Nova Iorque, o número de motoristas cadastrados no Uber já passou o número de táxis. O Uber logo valerá US$ 50 bi, algo próximo do valor atual da Petrobras. Breve virá a concorrência que tornará os serviços ainda mais interessantes e baratos, aumentando sua atratividade.
Olhando além do Uber e seus pares, já há iniciativas em diversas áreas — como o Airbnb na hotelaria — mostrando que outras indústrias serão alvo de semelhante situação; nem o antiquíssimo (e ilícito) serviço de lenocínio escapará.
Por fim, com truculência podem até proibí-los, mas o tráfico de drogas está aí para mostrar que passar um papel a limpo não impede que pessoas consumam o que elas querem consumir; apenas dificulta as coisas. Ironicamente, a evolução dos mercados parece ser o retorno à sua origem, ou seja, vizinhos trocando batatas por galinhas sem intermediários.

Portanto o Uber é mais do que um aplicativo de caronas; ele é ícone de uma nova tendência econômica que surge na era da informação: a Economia Compartilhada.
Quem for safo embarque nessa tendência, pois assim como nunca usei uma máquina de escrever, meu filho não saberá o que é um taxímetro.

Bônus: Eu conversei pessoalmente com um taxista sobre o Uber, e deixei o relato aqui no blog. Se você gostou do post, continue a leitura.

Continue Lendo

Eu, o Taxista e o Uber Conversei pessoalmente com um taxista para saber o que ele achava do Uber. O relato completo você lê nesse post.
CdM #15: Dunga, Gilmar, Del Nero e uma lição de política Uma reflexão sobre o que a demissão de Dunga e Gilmar Rinaldi pode nos ensinar sobre política.
Net Cafe Refugees A casa deles é a Lan House, mas não por opção. Quem são os Net Cafe Refugees?

Newsletter do Mercador

Receba conteúdo exclusivo por e-mail

Respeitamos sua privacidade e não mandamos spam. Você pode cancelar sua inscrição quando quiser.

Categorias: Cotidiano

Tags: ,

Deixe um Comentário

6 Comentários em "Uber e a Essência do Capitalismo"

avatar
Ordenar por:   mais novo | mais antigo | mais votado
Allan Vidigal
Visitante

Não entra na minha cabeça o taxista preferir viver sob o jugo do estado, pagando caro pra trabalhar, brigando pra se manter nessa coleira, desrespeitando e ofendendo o trabalhador que usa o Uber, ao invés de se juntar à eles. De fato, o sonho socialista se realiza e eles preferem se manter do jeito que estava. Não faz sentido…

Sergio
Visitante

Legal Guido. Penso que compartilho com você a alegria de ver alguns dos “burgos” do transporte no Brasil sendo ameaçados. Mas vejo o Uber com muita desconfiança. Ele não concentra ainda mais o poder?

Jabs
Visitante

Muito bom o texto, ainda mais porque sempre fui a favor do Estado Mínimo, com o livre mercado e iniciativa privada sendo apenas regulados pelo Estado.

E só tenho uma coisa a dizer, vou usar mais ainda o Uber … rss

wpDiscuz