O Milionário Mora ao Lado → Resenha

Livro: O Milionário Mora ao Lado (original: The Millionaire Next Door)
Autoria: Thomas J. Stanley e William D. Danko

Capa O Milionário Mora ao Lado

Durante a infância eu costumava ouvir da minha mãe: “Filho, quem tem muito não esbanja”. Minha mãe não leu O Milionário Mora ao Lado para falar isso, mas dois acadêmicos em Albany e um punhado de tabelas concordavam com sua frase. Os autores da obra buscaram entender quem eram e o que faziam os milionários americanos nos anos 80, seus hábitos, preocupações, valores e projeções para o futuro.

O imaginário popular carrega a imagem do milionário como ícone da ostentação, dirigindo carros caros e embrulhado sob roupas finas, comendo nos melhores restaurantes acompanhado das mais belas mulheres. Dessa forma, o que demonstra a riqueza é o consumo, especialmente o consumo de bens de consumo final — carros, joias — e serviços — “massagens”, viagens.

O livro O Milionário Mora ao Lado rebaterá esse conceito usando 20 anos de pesquisas desenvolvidas pelos autores, criando uma base argumentativa fundamentada muito mais na estatística do que na opinião particular. O foco da obra são as entrevistas e os estudos de caso, expostos de forma bastante imparcial, refletindo o caráter científico do trabalho.
O resultado da obra foi surpreendente aos autores, compreensível se pensarmos que tais constatações foram feitas em uma época onde livros sobre finanças pessoais ainda não povoavam prateleiras. Eu, particularmente, acredito que essa obra embasou toda uma geração de livros sobre finanças pessoais e aconselhamento financeiro, inaugurando o setor. Estou aqui resenhando um clássico.

No livro, os autores dividem os abastados em duas categorias, os PAR e os SAR. Ambos possuem alta renda anual, mas os PAR (Prodigiosos Acumuladores de Riqueza) economizam e se tornam mais ricos a cada dia, enquanto os SAR (Sub Acumuladores de Riqueza.) gastam muito para manter o alto padrão que sustentam. Entra nesse ponto o raciocínio base das finanças pessoais, que é a renda dos investimentos como chave para o aumento da fortuna, ou seja, o dinheiro trabalhando pelo dinheiro.

Nota: Lembre-se do conceito PAR e SAR, pois irei usá-los no restante da resenha. Os PAR possuem alta renda mas moderado consumo, os SAR possuem alta renda e alto consumo.

Contrariando o senso comum, milionários ostentadores são uma minoria estatística e representam um nicho em meio à sua categoria. “Moer dinheiro” é um hábito mais comum entre a classe média do que entre milionários. Eles são frugais e não consumistas, ou seja, vivem bem abaixo dos seus meios. Isso não significa que eles usem produtos ruins e sempre de segunda mão, mas sim que eles poderiam comprar itens mais caros e não o fazem por entender que tal desembolso não é vantajoso. Esses são os PAR.
Os SAR são, em sua grande maioria, funcionários de alto escalão ou filhos dos PAR. Como aprenderam que o dinheiro vem de forma periódica e constante — leia-se salário ou mesada — perderam o apreço ao hábito de economizar e então gastam muito, vivendo um padrão de vida elevado. Esse é o lado perigoso da ponte.

Cerca de oitenta por cento dos milionários o são em primeira geração, ou seja, tornaram-se milionários. Isso não é um espanto, pois já ouvi dizer que a riqueza dura 3 gerações, e pude evidenciar esse fato com meus próprios olhos algumas vezes. Ainda, é mais provável que um aspirante a PAR torne-se milionário do que um aspirante a SAR, ou seja, é melhor ganhar menos e ser frugal do que ganhar muito e ser consumista.
Fatores culturais também mostram notável importância na capacidade de acumulação e manuseio da riqueza, sobrepujando muitas vezes fatores ambientais relevantes. O livro traz uma pesquisa sobre nacionalidades e percentual de milionários, porém o exemplo clássico que costumo dar são os judeus e árabes. Em suas terras pouco se colhe, pouco se planta, e dia sim dia não há bombardeio; mas eles ainda assim são os donos da fortuna mundial. Alguns poderão dizer que o petróleo é a resposta para essa pergunta, mas a Venezuela está ai como contra exemplo.

Para os SAR, assim como para a maioria das famílias, planejamento financeiro consiste na certeza que os ganhos são maiores que os gastos, ou seja, que as contas poderão ser pagas. Decisões sobre investimentos são terceirizadas a bancos e corretores. Assim, planeja-se o gasto e terceiriza-se o investimento.
Os PAR vão além, pois não só planejam os custos da família, mas também participam ativamente dos investimentos. Usam sim de auxílio profissional, porém a última palavra é e sempre será deles. Não poderia ser diferente, pois como a principal fonte de renda não é o salário alto, saber investir é condição essencial para a manutenção da sua principal fonte de recursos.
Fazer dívida é, diversas vezes, a saída que as pessoas encontram para sua falta de planejamento. Incapazes de juntar dinheiro de forma programada, muita gente se força a pagar um boleto mensal. Quem nunca viu alguém fazer consórcio com o argumento de que isso é uma poupança forçada? Sem dúvida essa é uma ótima estratégia, para o banco, que é quem receberá os juros mensais.
Um pouco de disciplina, aliada ao recurso de depósitos programados do home banking, poderia colocar tempo e juros em favor do poupador.

Por fim, e de longe a parte mais interessante do livro, qual é o efeito da ajuda financeira que os pais abastados dão as filhos?
Estatisticamente constatou-se que o filho financeiramente mais produtivo recebe a menor parte da riqueza dos pais, enquanto o menos produtivo é aquele que mais recebeu ajuda. Ora, o filho “fraco” produziu menos pois ganhou mais, ou ganhou mais pois produziu menos? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?
O que acontece é que os pais, vendo a disparidade intelectual e laboral dos filhos, com boa intenção tentam reparar tal desigualdade. No entanto, em média, os filhos ajudados não reconhecem tal ajuda como algo adicional e momentâneo, mas sim como um direito adquirido permanentemente. Ou seja, o filho não verá a ajuda como algo adicional, e por isso provavelmente não se preparará para o dia que tal fonte cessar.
O Milionário Mora ao Lado então aconselha com sabedoria, e eu concordo. É importante que os pais auxiliem o filho em um kickoff financeiro, talvez emprestando sem juros ou dando uma modesta quantidade de dinheiro para a aquisição de um bem inicial, como um carro. No entanto aportes financeiros constantes para manutenção de nível de vida, como pagar uma viagem anualmente, não é um hábito que deve ser cultivado.

Concluindo, essa é a resenha de um clássico.
Peço desculpas pela resenha burocrática e segmentada, mas resenhar O Milionário Mora ao Lado é quase que resenhar uma publicação científica. Boa parte do livro é baseado em tabelas, e sobre tais tabelas desenrola-se a conversa. Se eu tivesse colocado tabelas aqui, todos já estariam dormindo, e por isso busquei resumir os conceitos em linguagem simples.

Riqueza é aquilo que você acumula, não aquilo que você gasta.

Não há nada que o Rolls-Royce represente que seja importante na minha vida. Nem tampouco eu gostaria de mudar a minha vida para me adaptar a um Rolls. Na posso jogar peixes no banco de trás de um Rolls-Royce como faço agora quando vou pescar.

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Categorias: Livros

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