No Money No Whey: uma análise do preço do Whey Protein importado no Brasil

Todo(a) maromba sabe que, cedo ou tarde, o whey protein fará parte de sua dieta.

Muito ou pouco necessário, com ou sem carboidratos, de morango ou chocolate, no pote ou no saco, que empelotam ou grudam na coqueteleira, concentrado, isolado, hidrolizado; são os diversos tópicos que povoam as comunidades online e as academias.

Há aproximadamente dois anos, Felix Bonfim tomou uma atitude sensacional quando publicou no YouTube uma série de vídeos intitulados de O Lado Escuro da Suplementação, primeiros de diversos outros vídeos e publicações onde ele apresentou laudos, de laboratórios idôneos, sobre a qualidade dos suplementos alimentares comercializados no Brasil. Os resultados mostraram que muitas marcas vendiam farinha — ou qualquer outra coisa diferente de proteína — no lugar do whey protein prometido no rótulo, uma vez que a concentração proteica indicada pelo fabricante era inferior ao resultado dos laudos, mesmo levando em conta as margens de erro aceitas pela ANVISA. O tema teve forte repercussão nos fóruns especializados, na mídia geral, na Câmara e até mesmo no Senado Nacional. A ANVISA então — naturalmente atrasada — suspendeu as vendas de alguns desses produtos. Felix, se um dia você ler isso, receba meus parabéns e agradecimentos.

O objetivo desse post não é analisar a qualidade dos suplementos alimentares, mas sim o preço com que eles chegam às prateleiras. Assim como eu, quem treina sabe que a dor muscular saudável aparece de 24 a 48 horas depois do treino e podem durar até mesmo uma semana, porém a dor no bolso após comprar alguns suplementos dura o mês inteiro.
Meu objetivo é trazer uma discussão fundamentada no cálculo do preço, e não nos achismos que você e eu ouvimos por aí todos os dias.

Para desenvolver a argumentação utilizei um produto altamente comercializado no Brasil e no exterior, o Elite Whey Protein, fabricado nos EUA pela Dymatize, em seu pote de 920 gramas (2 libras).
Mas por que a escolha de um importado? — me pergunta o leitor. Respondo.
Eu preciso necessariamente conhecer os custos para poder analisar o preço, afinal, como vou falar se algo é barato ou caro se não sei quanto ele custa?
Se o produto selecionado fosse nacional, seria necessário saber quanto custa produzí-lo, número que além de ser manipulável, me é inacessível. Já no caso do produto importado eu não preciso ter o custo de produção, pois basta saber o custo de importação, um número bem mais fácil de se estimar.

Teremos de assumir algumas premissas (aproximações):

PREMISSA 1 – O preço de importação (em dólar) será igual ao preço de venda nos EUA, na maior loja de suplementação do mundo, a Bodybuilding.com.

elitewhey_BB

PREMISSA 2 – Um dólar custa R$ 3.00, que é cotação aproximada em 13/04/2015.

PREMISSA 3 – O preço de varejo no Brasil será o preço do site Corpo Perfeito, uma das maiores lojas nacionais de suplementação esportiva.

elitewhey_CP

O custo ao importador é de US$ 23.96 (preço do Bodybuilding.com), mas cada US$ 1.00 custa R$ 3.00, o produto custará R$ 71.88.
Na prateleira nacional o produto custará R$ 185.30 (preço do Corpo Perfeito).
Um menos o outro dá R$ 113.42, dinheiro que ainda terá de pagar o frete, o imposto de importação, o lucro do importador e os impostos sobre a venda (ICMS, PIS, COFINS). Um por vez.

OS IMPOSTOS

Todo produto possui uma classificação fiscal conhecida como NCM, que pode ser consultada na tabela TIPI, do Governo Federal. Nela, a classificação que enquadra o whey protein é a 3502.20.00 (Lactalbumina, incluindo os concentrados de duas ou mais proteínas de soro de leite).
Com a NCM em mãos, podemos achar a alíquota do imposto de importação. A alíquota de importação do whey é 14%.

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A alíquota de ICMS varia de estado para estado, de 17% a 19%. Em São Paulo o ICMS é 18%, e para alguns casos especiais 12%. O whey não é um desses casos especiais, então usarei ICMS 18% na análise.

Resta o PIS/COFINS, que pode variar com o cadastro da empresa na Receita Federal. Empresas grandes, com vários de funcionários, são empresas classificadas como Lucro Real. Para elas, o PIS/COFINS é 9.25%. Esse será nosso caso.

O IMPORTADOR

O importador é o responsável por importar e distribuir o produto no Brasil. Como atacadista, sua margem não costuma ser muito alta, mas ele deve arcar com o frete marítimo ou aéreo. Vamos supor que o frete mais a margem de lucro do importador somem 15%.

A CONTABILIDADE

R$ Fabricante = 71,88

Imposto Importação (14%) = 71,88 * 14% = 10,06

Frete + Lucro do Importador (15%) = 71,88 * 15% = 10,78

Preço Líquido ao Lojista = 71,88 + 10,06 + 10,78 = 92,73

Aqui o correto seria aplicar os demais impostos antes de vender o produto ao lojista. No entanto, o lojista tomaria crédito desses impostos (ICMS, PIS/COFINS), descontando-os dos impostos devidos na hora da venda. Portanto seguiremos adiante com o preço líquido (sem impostos) e colocaremos os impostos somente no final, pois além de ser matemáticamente equivalente, é a prática comum do mercado.

NA LOJA

R$ Prateleira = 185,30

ICMS (18%) = 185,30 * 18% = 33,35
PIS/COFINS (9.25%) = 185,30 * 9.25% = 17,14

Lucro do Lojista = 185,30 – 33,35 (ICMS) -17,14 (PIS/COFINS) – 92,73 = 42,08

Sua história acaba aqui, enquanto o lojista está com R$ 42.08 nas mãos. Para ele é só o começo.

O LOJISTA

Você comprou seu whey, pagou, apertou a mão do vendedor e foi embora. Bom treino.
O lojista está com R$ 42.08 no bolso e com esse dinheiro ele irá pagar seus funcionários, aluguel do prédio, luz, água, internet, contador, etc., e depois investir em marketing, reformar a loja, etc.
Se o lojista tiver um business muito bem desenhado, ele vai gastar metade do lucro com essas despesas e gastos. Sobrará para ele, então, R$ 21.04.

Ele já poderá comprar seu carro importado? Não tão rápido. Até aqui todos os impostos foram os que incorrem sobre o faturamento (emissão da nota fiscal). Faltam ainda os impostos sobre o lucro.
Como R$ 21.04 é lucro, incidirão sobre ele IRPJ (15%) e CSLL (9%).

IRPJ (15%) = 21.04 * 15% = 3.16
CSLL (9%) = 21.04 * 9% = 1.89

O lojista terá então R$ 15.99 para embolsar.

DIVIDINDO O BOLO

Quem conseguiu acompanhar o raciocínio até aqui deve estar, além de cansado, com dó do lojista.
Curiosidade atiçada, vamos ver como ficou a divisão do bolo, ou melhor, dos R$ 185.30 que você pagou no whey.

elitewhey_graf
Após olhar a distribuição do dinheiro, a reflexão é sua. Lembre apenas que o produto é importado, então na fatia “Fabricante” estão Governo e Fornecedores nos EUA. Lembre também que na fatia “Outros” há trabalhadores que pagarão Imposto de Renda e produtos que também carregam ICMS, IPI, PIS e COFINS.

Finalmente, os impostos sobre o faturamento (II, ICMS, PIS/COFINS) são calculados nas notas fiscais, portanto sempre há dinheiro para pagá-los. Já os impostos sobre o lucro (IRPJ/CSLL) são, logicamente, pagos quando há lucro, mas nunca restituídos no prejuízo. Portanto o Governo nunca leva prejuízo, diferente do seu sócio, que pode quebrar com você.
Resumidamente, quando disserem “aqui o Governo é meu sócio”, corrija o interlocutor: o Governo não é seu sócio, ele é o seu senhor.

Buscando um pouco de alívio para as pequenas empresas, foi criado o Simples Nacional, uma modalidade de enquadramento em que pequenas empresas arrecadam seus impostos de forma simplificada (daí o nome Simples) e com alíquotas reduzidas, que progridem conforme as vendas vão aumentando, até um limite que obriga o desenquadramento.
Quem produz artesanato ou vende serviços sente uma redução significativa. Já aqueles que trabalham no comércio não sentirão tamanho alívio, pois terão de arcar com os custos que lhes serão repassados pelos seus fornecedores, normalmente de grande porte e portanto enquadrados nos modelos tradicionais. Mas, sem dúvida, já é um começo na tentativa de simplificar o caro e complicado sistema tributário brasileiro.

Por isso, quando você entrar em um fórum na internet e ver gente chamando lojista de ladrão, seja pela oferta de um pote de whey ou de um Playstation 4, pense duas vezes. Ladrão é quem vende farinha no lugar da proteína, que rouba para vender na praça. Quem paga impostos e contrata funcionários é sim guerreiro, que se submete a notáveis riscos em um país que cobra muito em contrapartida de nada. Minha solidariedade e respeito a todos os comerciantes desse ramo, pois meu dinheiro eu já tenho dado a vocês há alguns anos.

Obs.: Caso você queira testar os cálculos e alterar valores, criar novos cenário, etc., deixo abaixo a planilha que usei.

Download “Whey - Composição de Preço - Memória de Cálculo” elitewhey_calc.xlsx – Baixado 153 vezes – 15 KB


Edit 15/04/2015:

Uma das premissas que baseia o raciocínio acima é o preço de importação ($23.96 do Bodybuilding.com).
Pergunta: E se na prática o preço de importação for diferente, a carga tributária muda muito?
Utilizando a planilha, criei vários cenários para diferentes preços de importação, cujos resultados estão no gráfico abaixo:

elitewhey_graf2
Veja que o Governo é o único que sempre tem sua receita garantida. Mas como, bruxaria?
Vamos analisar as duas pontas, mas antes lembre que o preço de venda permanece inalterado, seja pela tabela ou pela concorrência.

CENÁRIO 1: Preço de importação $ 1.00, barata
O fabricante recebe pouco. Consequentemente o importador também recebe pouco, pois seu lucro é proporcional preço da importação. Quem aparece bem é o lojista, que pagou barato por um produto que ele venderá à valor de mercado. Já que metade do seu lucro é reinvestido, seus fornecedores e funcionários também vão partilhar dessa bonança.
O Governo vai arrecadar pouco na importação, pois o volume de dinheiro é baixo, mas arrecadará bastante no lojista, que além de movimentar uma boa quantidade de dinheiro, realizou lucro.

CENÁRIO 2: Preço de importação $ 33.00, cara
O fabricante recebe uma quantidade razoável de dinheiro, pois está exportando caro. O importador também está feliz, pois seu ganho é proporcional ao preço da importação.
O lojista, no entanto, está entre a cruz e a espada. Importando um produto caro e tendo um preço de mercado fixo (por tabela ou pela concorrência), resta diminuir sua margem para quase zero. Lucrando pouco, há menos dinheiro para contratar funcionários e serviços.
E o “sócio”? Ele está bem. Não arrecadou muito na lojinha, mas a arrecadação do importador compensou.

Não é bruxaria. Se o Governo não arrecada numa ponta, arrecadará na outra.
O único jeito do Governo perder é caso o lojista resolva ficar em casa ao invés de ir trabalhar. Ocorre então a retração econômica, a.k.a. recessão. O importador terá para quem importar, os funcionários ficarão sem emprego e os fornecedores sem serviço.

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Categorias: Economia

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