Hayek: Economia e Conhecimento

Frederich August von Hayek [1899-1992]

Frederich August von Hayek [1899-1992]

Todo processo de criação de valor depende de fontes, que vão desde a materialidade do minério de ferro para a produção de utensílios domésticos, meios menos materiais como a irradiação térmica proveniente do Sol para “gerar” energia elétrica até outros realmente subjetivos, como a criatividade de um escultor para transformar barro em uma escultura que será admirada por séculos. Dentre todas as fontes possíveis – dado que até mesmo o Sol irá apagar – somente uma é seguramente inesgotável e amplamente disponível, e é a imaginação humana.

O conhecimento é, por sua vez, a capacidade que as pessoas possuem de transformar o que elas (ou terceiros) imaginaram em ações que de fato criarão valor no mundo real. Mas como o conhecimento está distribuído, e como se apresenta? Até que ponto é possível manuseá-lo? Ou sequer conhecemos seus limites?

Valendo-se do material intelectual iniciado por Menger e aperfeiçoado por Mises, Hayek encorpou ideias cujo conteúdo tem tamanha importância que, compiladas, formam a teoria do conhecimento. Seus principais artigos sobre o tema foram Economics and Knowledge (1937) e The Use of Knowledge in Society (1945). [links para download no final desse post]

O conhecimento não é um bem material cuja posse pode ser reivindicada ou abdicada conforme a vontade daquele que o detém (ou assim pretende), tampouco pode ser transferido integralmente sem alterações. Um mesmo livro lido por duas pessoas diferentes gera conhecimentos distintos nos respectivos leitores, pois o estoque de conhecimento prévio de cada um altera a forma com que o novo conhecimento é adquirido e armazenado. Ainda, experiências futuras continuamente alterarão o novo estoque, em um processo único para cada portador do determinado saber. Dessa forma a teoria do conhecimento conforme a Escola Austríaca entende que o conhecimento é individual e obviamente limitado, dado que os seres humanos possuem limitações cognitivas intrínsecas à existência humana (ou seja, a memória tem limite).

Como o conhecimento não é um bem material, mas se encontra armazenado nos indivíduos que por sua vez estão dispersos fisicamente, o conhecimento está disperso. Cada ser humano detém uma pequena porção do conjunto completo do conhecimento existente na humanidade, conjunto tal que muda a todo instante pois a contínua ação humana dos indivíduos gera alterações nos estoques individuais, que somadas alteram o estoque total. Como o conhecimento é alterado dinamicamente não é possível formalizá-lo na mesma velocidade com que ele é modificado, por isso a maior parte do estoque de conhecimento é tácito (está na mente das pessoas e não escrito), e como nem tudo pode ser empiricamente atestado ele também é majoritariamente subjetivo e de ordem prática.

Além de disperso, o conhecimento está oculto, seja nas mentes que o armazenam ou nas aplicações práticas cuja existência dele dependem. Oculto nos indivíduos, pois só pode ser apresentado caso seu portador queira (e consiga) expô-lo a um receptor minimamente capacitado a entendê-lo. Oculto em aplicações, pois me beneficio do conhecimento de terceiros sem conhecê-lo ou compreendê-lo; por exemplo, todos os motoristas sabem que pisando no acelerador o carro de fato acelera (know how), no entanto poucos são os que sabem explicar porque isso acontece (know why).

Importante destacar que existe um subconjunto do conhecimento formalizado, o conhecimento científico. Existe também um subconjunto explícito (portanto não tácito), registrados de forma que não dependam mais do indivíduo portador, como materiais presente em livros e demais recursos de multimídia (som, imagem, vídeo). Esses atributos facilitam a transmissão, porém não retiram o caráter oculto do conhecimento, uma vez que por mais acessíveis que estejam ainda assim necessitam de um receptor apto a assimilá-lo. Eu poderia disponibilizar vídeo-aulas de cálculo diferencial a todos os habitantes de uma cidade, poucos teriam o interesse em assimilá-lo, e pouquíssimos teriam em seus estoques matemática suficiente para poder utilizá-lo.

Individualizado, disperso, oculto e em constante mutação, é certo que o conhecimento encontra-se desarticulado na sociedade.

Observando vontades reais ou potenciais, a imaginação humana cria ideias de como gerar valor às pessoas. Para viabilizar essas ideias é preciso empregar um conjunto de conhecimentos que, articulados, transformarão ideias e outras matérias-primas em produtos (materiais ou não) que de fato poderão ser consumidos. No entanto, dado que o conhecimento está desarticulado na sociedade, comumente é necessário que exista pelo menos um agente articulador que o organize de forma a viabilizar o meio de produção, criar um produto. Esse agente é o Empreendedor, e a articulação intencional e deliberada do conhecimento é o cerne da Função Empresarial. Assim funciona a economia.

Adendo 1: O desenvolvimento do conhecimento não depende necessariamente da atividade deliberada de um ou mais agentes articuladores.

waze na práticaPrincipalmente em ambientes onde impera o positivismo¹, como sociedades que simpatizam com o socialismo ou sistemas mistos, crê-se na falácia de que, sem um agente central revestido de virtuosidade e onisciência, imperará a desordem generalizada. Essa afirmação resiste à observação da história? Não.
Um dos bens mais valiosos das sociedades humanas é a linguagem. Através dela é possível transmitir o conhecimento, criar cooperação eficiente e viabilizar a vida em sociedade. Quem inventou o latim? Quem inventou o alemão? Ninguém. A linguagem é um exemplo perfeito do que Hayek descreveria como ordem espontânea. A ordem espontânea diz respeito à organização que surge sem o articulador central, mas articula-se naturalmente através do comum interesse de todos os envolvidos. No caso do exemplo acima, o interesse comum é fazer-se entender.
O Waze é outro exemplo de ordem espontânea. Sem coordenação alguma, os usuários voluntariamente atualizam e corrigem o mapa em suas respectivas localidades, além de reportarem em tempo real buracos na pista, acidentes, bafômetros e outras ocorrências de interesse dos motoristas. Como o software disponibiliza todas essas atualizações em tempo real,  os usuários se beneficiam da informação ao vivo, conhecimento tal que antes lhes era totalmente oculto pois estava inacessível e disperso. Quem já usou sabe como funciona bem.

Adendo 2: A descoberta de preços orienta o processo de articulação de conhecimento.

A articulação do conhecimento ocorre em busca de fins específicos predeterminados pelo empreendedor. Quais conhecimentos articular, e para que? Os preços direcionam as respostas, transmitindo a informação de onde há menor articulação.
Altos preços comparativos podem, por exemplo, denotar baixa eficiência em um determinado setor. Articular o conhecimento de forma a criar processos mais produtivos viabilizará uma produção mais barata, e o empreendedor poderá vender tal solução com bons lucros. Ele poderia descobrir isso através de um extenso processo investigativo, assumindo altos riscos, porém pode fazê-lo com mais assertividade graças à observação dos preços. Portanto quanto melhor e mais transparente for o processo de descoberta de preços, mais eficiente é a articulação do conhecimento e, consequentemente, mais valor é gerado.

Adendo 3: A articulação do conhecimento, que outrora se apresentava desarticulado e oculto, não depende necessariamente da disponibilidade de capital próprio ou de terceiros.

A articulação inteligente do conhecimento cria valor, e o processo de criação de valor não necessariamente necessita de capital prévio.
Por exemplo, suponhamos que Luiz queira vender seu sítio, e Zé comprar um. Luiz quer vendê-lo por R$ 900 mil, Zé está disposto a pagar R$ 950 mil à vista, porém ambos não se conhecem, e eu conheço os dois. O conhecimento encontra-se desarticulado.
Então me aproximo de Luiz e compro seu sítio, entrego-o para o Zé e pego seus R$ 950 mil, então retorno e pago a Luiz os R$ 900 mil da compra. A diferença de R$ 50 mil é meu lucro, que embolsei sem gastar nada. No final Luiz está feliz porque vendeu seu sítio pela quantidade de dinheiro que pretendia, Zé feliz com seu novo ambiente de lazer sem gastar nada mais do que estava disposto, e eu com R$ 50 mil no bolso. Quem perdeu? Ninguém.

¹ Positivismo: De forma simplista, o positivismo defende a ideia de que existe um caminho ótimo para atingir o resultado ótimo, e tal caminho será tido como científico enquanto os demais serão inválidos. Segundo seus defensores, o progresso da humanidade depende exclusivamente de tais “avanços”. Por exemplo, ensinar crianças a dirigir com cautela e segurança não é uma medida positivista, no entanto multar que não usa cinto de segurança é. No positivismo eu não permito que um indivíduo escolha o que é melhor para si, ensinando-o, mas sim o proíbo de discordar do que eu entendo ser o melhor para ele. A Lei não apenas cria limites de conduta, mas também ordenanças de como os indivíduos submetidos a ela devem agir.

Download “Economics and knowledge, Hayek 1937” Economics-and-knowledge-Hayek-1937.pdf – Baixado 165 vezes – 514 KB

Download “The use of knowledge in society, Hayek 1945” The-use-of-knowledge-in-society-Hayek-1945.pdf – Baixado 135 vezes – 1 MB

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Categorias: Economia

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