Eu, o Taxista e o Uber

Relatarei a seguir a conversa que tive com um taxista em uma das maiores metrópoles do país, mas manterei localidade e identidade em oculto.
À época eu estava escrevendo um post sobre o Uber, então aproveitei a oportunidade para falar do tema com quem tende a ter uma opinião “acalorada”, o taxista. Muita gente anda inferindo a opinião desses profissionais, mas nada é tão genuíno como perguntar pessoalmente.

A trabalho desembarquei em uma cidade distante, onde procurei um taxista para me levar ao hotel. Rapidamente entrei no carro em que eu seguiria uma corrida de aproximadamente 25 minutos. Nada diferente do usual. Se eu tivesse sorte, o taxista seria uma pessoa comunicativa.
Ele mal engatou a segunda marcha e já estava falando mal do governo Dilma — portanto dei sorte e a conversa fluiu com facilidade — mas eu tinha um tema específico para abordar, o Uber.
Contornei o assunto de forma despretensiosa pois eu sabia que a negativa viria na sequência, e não era ela que eu queria ouvir, mais sim os motivos que a embasavam.

— … e o Uber, é usado aqui na cidade?
— Está começando a aparecer, mas a prefeitura está em cima. Estão fazendo blitz para pegar motoristas ilegais.
— Mas e você, o que pensa do Uber? — questionei curioso pela resposta e pela reação.
— Eu acho injusto. Pago taxas para a prefeitura, aeroporto, sindicato, aluguel de rádio táxi. Pago tudo isso e um cara com o Uber não vai pagar nada disso. Não tem como eu concorrer com ele.

Depois disso o taxista seguiu reclamando de todas as taxas federais, estaduais e municipais que ele conhecia. Eu já sabia o que iria falar, mas queria que ele fosse o mais sincero possível; então deixei ele reclamando e dei corda.
Ao final do desabafo ele me passou os valores cobrados. A soma de prefeitura, aeroporto, sindicato e aluguel de rádio táxi passava de R$ 2.500 mensais, sendo o rádio táxi o item mais caro.

— O senhor pode ser taxista e optar por não utilizar o rádio táxi?
— Não temos essa opção. Precisa pagar o rádio táxi de qualquer jeito.
— A prefeitura te ajuda em que?
— Em nada. Só manda o boleto.
— E o sindicato, ajuda vocês?
— De jeito nenhum. Até briguei com um dos chefes, disse na cara dele que ele não defendia nosso direitos p***a nenhuma e que ele era um filho da p**a. Tive muitos problemas por isso.
— E precisa pagar o sindicado de qualquer jeito para ser um taxista?
— Precisa.
— Então o senhor não tem flexibilidade alguma. Ou paga todo mundo ou não trabalha.
— Isso mesmo. E para arcar com tudo, maquininha de cartão, gasolina, seguro, …, preciso trabalhar 17 horas por dia para sustentar a minha família com R$ 5 mil mensais.

Terreno armado, lancei o morteiro…

— Mas chefe, pense comigo… você paga um monte de gente que não te ajuda em nada. Certo?
— Certo.
— Então. Você nunca pensou em largar o táxi oficial e ser um motorista do Uber? Você deixaria de pagar esse monte de taxas inúteis e trocaria o rádio táxi por um aplicativo gratuito no celular. Nem da maquininha de cartão iria precisar mais. Não seria melhor?

deniro

Caro leitor, seu azar é não ter visto a cara dele. Eu vi, e foi muito interessante.
A impressão que eu tenho é que ele nunca tinha parado para pensar dessa forma. Quase vinte anos dirigindo táxi o impediram de imaginar que seria possível ganhar a vida sem ter listras pintadas no carro.

Alguns segundo depois…

— É… mas se todo mundo pedir demissão e colocar dois carros na rua, não vai ter serviço pra todo mundo.

Minha missão estava cumprida, eu já estava satisfeito com o resultado. Continuamos falando de generalidades até chegarmos no hotel, onde paguei com dinheiro para ele economizar o percentual da maquininha do cartão.

Eu poderia completar, dizendo que não há como cada um colocar dois carros na rua. O Uber não subcontrata, e também não tem sentido alguém ser empregado para trabalhar com o aplicativo; é só fazer um cadastro na internet e você será seu próprio patrão. Portanto, se 1.000 carros saíssem do táxi oficial e fossem para o Uber, seriam 1.000 táxis a menos e 1.000 Ubers a mais.
Essa lógica é tão válida quanto achar que mais ônibus prejudica os taxistas. Com um transporte melhor, o táxi anda mais rápido e pode levar mais gente, gerando mais lucro.

Enfim, nada como ouvir a opinião na fonte e sentir-se um jornalista por 20 minutos.

Continue Lendo

CdM #15: Dunga, Gilmar, Del Nero e uma lição de política Uma reflexão sobre o que a demissão de Dunga e Gilmar Rinaldi pode nos ensinar sobre política.
Net Cafe Refugees A casa deles é a Lan House, mas não por opção. Quem são os Net Cafe Refugees?
CdM #14: Por Sasha, por Frota, contra a hipocrisia O ministro da Educação foi criticado por receber Alexandre Frota, um ex-ator pornô. O Mercador denuncia a hipocrisia desses críticos, fazendo um paral...

Newsletter do Mercador

Receba conteúdo exclusivo por e-mail

Respeitamos sua privacidade e não mandamos spam. Você pode cancelar sua inscrição quando quiser.

Categorias: Cotidiano

Tags: ,

Deixe um Comentário

3 Comentários em "Eu, o Taxista e o Uber"

avatar
Ordenar por:   mais novo | mais antigo | mais votado
Rafael Querido
Visitante

É, meu caro. A grande dificuldade neste país é contornar um pensamento inercial e quebrar paradigmas.

Mas, de alguma forma, você o fez. A semente foi plantada. Vamos aguardar os frutos.

Parabéns pelo sucesso da página.

Abraços,

Brunno Novaes
Visitante

Gostei muito da experiência. Me diverti com a invertida no taxista. Você teria interesse de escrever um texto para o site http://www.kavalheiros.com?

Jabs
Visitante

KKK, só estava esperando vir a pergunta de porque ele não larga tudo é vira Uber para poder dar risada lendo o texto, e SIM queria ter visto a cara dele . KKK

wpDiscuz