Economia segundo a Escola Austríaca

O que é Economia sob o ponto de vista da Escola Austríaca?

Vontade, a motivação da ação humana

Ação Humana capitulo 1“A ação é a vontade posta em funcionamento”, disse Ludwig von Mises na primeiro parágrafo de sua obra prima Ação Humana. No entanto, o que é vontade?

Uma pessoa pode querer aquilo que outra repele com veemência, ou elas podem desejar a mesma coisa de forma que seria impossível que ambas se saciem. Não temos como saber o quê as pessoas querem, mas é bastante simples entender o porquê delas quererem. De forma genérica, as pessoas querem algo porque entendem que isso as levará de um estado de menor satisfação para outro de maior satisfação.

É importante ressaltar que maior satisfação não implica necessariamente na maximização de recursos materiais ou prazer; é possível que alguém se sinta satisfeito abrindo mão desses atributos, doando aos necessitados por exemplo. Levando a argumentação ao extremo, um suicida entende que morto terá mais conforto do que em vida, então suicidar-se é uma ação humana natural visando sair de um estado de menor conforto para outro de maior conforto. Se eu entendo que acordar cedo para trabalhar me proporciona menos sofrimento do que passar por privações de comida e abrigo, então vou ao trabalho.

A lógica por trás desse trade-off, entre o desconforto de agir e os benefícios auferidos pela ação, embute em si o conceito de lucro, ou seja, indivíduos atuam quando o custo de agir é menor do que o retorno trazido por tal ação. Sob esse ponto de vista, não estamos trazendo a lógica econômica para compreender as ações do dia a dia, mas sim usando o comportamento natural dos seres vivos para compreender as transações de bens, serviços, tempo, risco e conhecimento, ou seja, o mercado. Observe, quem inventou o mercado não foi o capitalismo, mas a civilização humana atuando em sua forma mais primitiva.

Incertezas, as dúvidas envolvidas na ação humana

dadosNa vida há aqueles que julgam não haver certezas, outros se limitam apenas a algumas delas, mas todos concordam que cotidianamente o resultado futuro de uma ação tomada no presente possui alguma medida de incerteza. São vários os fatores que alteram as probabilidades de sucesso, alguns sob razoável controle do executor da ação, outros que ele sequer conhece. A certeza absoluta seria possível apenas se fosse possível visualizar no presente o resultado futuro, ou modelar a realidade e simulá-la com precedência, porém para os pensadores da Escola Austríaca essa é uma aspiração impossível quando tratamos de ações humanas que, evidentemente, são carregadas de subjetividade. Dessa forma, sem a existência de um agente que deliberadamente assuma o risco da atividade a custo zero – por exemplo um órgão governamental arcando com prejuízos de uma empresa petrolífera – ações são tomadas em ambientes de genuína incerteza.

É importante ressaltar que o Mercado – aqui com M maiúsculo por se tratar da soma de todos os mercados – é uma entidade abstrata segmentada, cujas partes se relacionam de forma dinâmica. É impossível isolar um mercado e alterá-lo sem que os demais mercados adjacentes também sintam tais ações, seja através da propagação dos resultados via cadeia de valor, quando aumentando o preço do combustível também aumento o preço dos alimentos que necessitam de frete para serem transportados, ou via arbitragem, quando o indivíduo toma emprestado do BNDES a 7.5% para financiar suas obras enquanto mantém suas economias investidas no Tesouro Nacional a 15.92% sem risco na operação. Assim como ações não produzem resultados instantâneos, a propagação dos seus resultados também leva um determinado tempo para ser sentida por todo o Mercado.

Tempo, a distância entre a ação humana e suas consequências

Finalmente, observamos que há tempo para que uma ação seja plenamente executada, e também há outro tempo conseguinte para que os resultados de tal ação sejam sentidos em todos os mercados. Por exemplo, quando opto por abri uma empresa para vender sorvetes tenho um tempo de planejamento e organização do negócio, e depois um tempo para tentar lucrar com tudo que construí. Ora, esse tempo é linear?

ampulhetaDado que tratamos do ambiente humano – a literatura científica descreveria isso como ambiente de baixa velocidade, portanto não quântico – o tempo passa de forma linear. Um segundo hoje demora o mesmo tempo que um segundo demorava há mil anos. No entanto a forma com que as ações repercutem certamente não é linear, pois suas consequências ainda parciais já alteraram o ambiente de forma que ele jamais poderá ser “reconstruído”. A consequência imediata desse raciocínio é que uma ação tomada hoje gerará resultados diferentes do que a mesmíssima ação se tomada daqui alguns dias, pelo simples fato que o ambiente terá mudado e ações tomadas em ambientes diferentes naturalmente geram resultados distintos.
Por exemplo, se há 100 anos um cidadão quisesse desejar felicidades à sua mãe aniversariante distante 100 quilômetros de sua residência, necessitaria de pelo menos um dia de caminhada; a mesma atividade se realizada hoje levaria alguns segundos através de uma videochamada no WhatsApp. Por acaso os segundos hoje passam mais rápido do que há 100 anos? Certamente que não. O que mudou foi o ambiente, atualmente muito mais tecnológico, que por sua vez alterou drasticamente a forma com que ações são executadas e absorvidas.

O raciocínio acima parece trivial, porém trata-se de uma discordância frontal à maioria dos modelos econômicos preditivos. Quanto mais distante estiver o horizonte de eventos que um dado modelo tenta antever, maior será sua imprecisão, dado que o ambiente terá sido mais alterado em relação ao cenário inicial. Resumidamente, modelos convencionais assumem ação linear do tempo, enquanto os austríacos entendem que o passar do tempo gera alterações não lineares e subjetivas no curso das ações e seus desdobramentos.

O que é economia?

Iniciamos com a certeza de que pessoas atuam conforme suas vontades. Independente da vontade, ela certamente intenta em levar o indivíduo de um estado de menor satisfação para outro de maior satisfação. Ninguém pode prever se a ação atenderá às expectativas do agente, dado que seres humanos são falhos e existem diversas variáveis incontroláveis, cuja soma resulta em incertezas. Também não é possível afirmar que uma ação bem sucedida traga no futuro a satisfação que outrora se imaginou que traria, pois o tempo decorrido entre ação e resultado pode ter sido suficiente para que o ambiente tenha sido alterado, de forma que as demandas do agente também tenham mudado. Assim concluímos que as atividades humanas, sendo algumas delas um conjunto denominado economia, no mundo real, podem ser descritas como um conjunto de ações ao longo do tempo real tomadas sob condições de incerteza.

“A economia é ação humana ao longo do tempo, nos mercados, sob condições de incerteza genuína.” – Ubiratan Jorge Iorio

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Categorias: Economia

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