Dilma 2 e a Crise Política: o viés econômico

Chega a ser inacreditável como um Governo eleito democraticamente (leia-se na contagem de votos), há menos de um ano e meio, sucumbe de forma tão lamentável. Como pôde uma crise política sem precedentes instalar-se em Brasília tão rapidamente?

Mais uma vitória como esta, e estou perdido” — Rei Pirro, após derrotar os romanos

Mentira e ingerência como sementes da crise econômica

Permita-me uma visita ao passado, em algumas linhas.
Em se falando de ficção, poderíamos trazer a análise até 2009, com a forte valorização das commodities em paralelo às medidas keynesianas de fartura de crédito para consumo, sob a reiterada desculpa de favorecer os maior pobres. São dezenas os que já naquela época afirmavam que tudo isso seria devolvido pela população em formato de inflação e desemprego, mas as nuvens de chuva estavam distantes demais para que eles fossem ouvidos. Se toda aquela avalanche de capital fosse imobilizada em infraestrutura e serviço estruturantes como educação, ou reformas fiscal e previdenciária, hoje não amargaríamos a crise que amargamos. Era mais fácil subsidiar carro e geladeira. Tais medidas foram tidas como a pedra filosofal do crescimento econômico, com vida própria independente da quantidade de capital externo sendo depositado na nossa economia. Pois bem, as políticas continuam e o capital se foi, sendo que hoje o povo devolve tudo no formato de inflação e desemprego. Cá estamos nós, em recessão, e isso não é por acaso.

Ainda antes do período pré-campanha da reeleição, a equipe de Dilma via sinais de que a situação econômica tendia ao declínio. Veja um trecho da coluna da Claudia Safatle, do Valor Econômico.

Em março de 2014 o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, levou para a presidente propostas de cortes de despesas mediante mudanças nas regras de acesso a benefícios previdenciários e trabalhistas, gastos que cresciam de forma acelerada e injustificada. Relatos de fontes bem informadas dão conta de que Dilma teria respondido a Mantega com uma pergunta: “Você quer que eu perca a eleição?” — Claudia Safatle, Valor Econômico

Mantega estava vendo o óbvio, as nuvens negras se aproximavam. O Governo gastava como quem cresce 7%, mas a arrecadação apontava para quem cresce 0%. Tratava-se de uma bomba relógio que explodiria nos próximos meses, e algo deveria ser feito caso quisessem agir como bons e responsáveis administradores. Não quiseram.
Não vou me estender na análise econômica para não desvirtuar o post, prometo para uma próxima trazer os dados com mais clareza.

A estratégia tomada à época hoje parece óbvia; o Governo usou tudo que podia (e o que não podia também) para criar um cenário fictício que mascarasse as mazelas econômicas que viriam. A estratégia era negar a realidade e, no limite do possível, maquiá-la.
Veja o vídeo abaixo, e lembre que não se trata de uma montagem.

Para corroborar o discurso que você acabou de assistir, a instrumentação econômica rolou solta e a ponta da caneta estava em brasas. Uma dessas medidas foi o conjunto de artimanhas nominado futuramente de “pedaladas fiscais”, sobre as quais falarei mais adiante.
Para conter a inflação, o braço. No setor elétrico o represamento das tarifas de energia, além da MP579 que foi carinhosamente apelidada de “11 de setembro do setor elétrico”. Nos combustíveis, represamento dos preços na Petrobras. Os juros seguiriam onde estavam, baixos na marra. O BNDES emprestava para seus campeões, os subsídios corriam soltos. Austeridade e arrocho viraram sinônimos, responsabilidade fiscal era política neoliberal.
Assim como você lê isso hoje e pensa “nossa, lógico que ia dar mer*a” nossos filhos também lerão isso nos livros de história e dirão “nossa, como acreditaram?“.
Pois é, não só acreditaram como defenderam, muitos dos quais com diplomas de economia embaixo do braço, ou até mesmo títulos de maior valor.

leitão krugman

Aliás eu estaria equivocado em dizer que Dilma não fez nada do que prometeu. Uma promessa ela cumpriu bem, a de “fazer o diabo” nas eleições.
O vídeo abaixo mostra a desconexão, na opinião dela, entre eleição e subsequente mandato público.

A reeleição veio, e o resultado vocês já sabem. Vou resumir em imagens.

subiu juros uol

subiu juros G1

dolar maxima historicarebaixamento sep

rebaixamento moodys

rebaixamento fitch

inflacao 2015 G1

Desculpas, desculpas e as consequências palpáveis

O que foi ventilado à época foi que Dilma e sua equipe não sabiam da profundidade do buraco, e então depois de ganharem a eleição perceberam que seria necessária uma modificação de curso para salvar a economia nacional da bancarrota completa. Naturalmente isso ofende até as mentes menos privilegiadas, pois como poderia apenas a equipe de Dilma discordar daquilo que todos falaram sem parar por pelo menos 6 meses?

Outra justificativa foi a “crise internacional”, justificativa tal que durou até os dados oficiais do PIB de outros países começarem a sair.
O Brasil ficou em 33º dos 35 comparados, ganhando da Rússia e da Ucrânia que estavam em (quase) guerra.

ranking_pib_2015

Não foi fácil, mas depois desse banho de verdades que a vida nos fez o favor de mostrar, o próprio Lula concluiu o óbvio enquanto discursava sobre a crise política. No vídeo abaixo você pode tirar suas próprias conclusões.

Mentindo, o Governo criou uma expectativa elevada e imaterializável. Após as eleições, para tentar amenizar o que ele sabia que viria, agiu de forma totalmente distinta ao que havia prometido semanas atrás. Suas intenções então se transformaram em frustração generalizado, dado que muitos dos seus eleitores passaram a sentir-se enganados. A realidade bateu sem dó.
Pense na falta de expectativa de qualquer pagador de salários nesse país, com um Governo incapaz que perduraria por mais 4 anos. Alie isso tudo ao desrepresamento dos preços e inflação acima dos 10%. Questão de dias o material de campanha esfarelou, racha em marcha de ré. O castelo virou pó.

Enquanto a problemática econômica mora nos investimentos, é fácil desdenhar. Que tem “os pobres” a ver com o índice Bovespa? Quem se importa com o investment grade que foi tirado?

pobre come gasolina

Foi uma questão de tempo, talvez um ano, para que esses problemas se transformassem em questões mais “palpáveis”.
Todos os sintomas foram ignorados, negligenciados, desdenhados. Todos as vozes contrárias, antes tidas como reacionárias e invejosas, que podiam “chorar mais que estava pouco”, agora viam seus discursos materializados.
Nada mais claro do que inflação, desemprego, endividamento familiar e recessão.

desemprego entre jovens ameaça geração

desemprego entre jovens superara média mundialconta luz aumenta

conta luz aumenta

gasolina aumenta

inadimplencia

pib 2015

Necessidade de um ajuste nas contas, vulgo ajuste fiscal

Qualquer família sabe que não é possível viver muito tempo gastando mais do que se ganha. A única forma de fazer isso no curto prazo é endividando-se, algo que sairá tão mais cara quanto mais arriscado seu credor sentir-se na operação.
Se seu plano de endividamento é sólido, por exemplo você vai abrir mais uma loja da sua franquia que já possui três pontos de sucesso, e além disso possui bens para dar como garantia, qualquer um te emprestará dinheiro. Assim também é com um país; quanto menos endividado e mais garantias (leia-se rating) você apresenta, mais barato você capta dinheiro.

Imagine agora que você é um credor e está prestes a emprestar dinheiro para um país. Você entra no site do Banco Central e vê os seguintes gráficos:

evolução dívida pública

A dívida só cresce. O que está sendo feito com esse dinheiro?

resultado primário

Gasta-se mais do que se ganha. É necessário cada vez fazer mais dívida.

Mas seu amigo economista te falou que há países com dívidas muito maiores do que essa, e por isso é injusto tirar seu rating dado que esses outros são tidos como bons pagadores. Se você quiser acreditar nele, não procure qual é a taxa de juros e a inflação nesses países.
Apesar de parecer brincadeira, se você perguntar se é melhor “dever 4 pagando 1% de juros, ou dever 1 pagando 14.25% de juros, por 30 anos”, são muitos os que não saberão responder.
Eu te respondo, é 10 vezes melhor dever com os juros baixos. Segue abaixo minha vasta argumentação, repleta de ideologia.

\frac{1*\left(1+14.25\%\right)^{30}}{4*\left(1+1\%\right)^{30}}=10.09

Não é o suficiente, você adora aquele país e faz questão de investir lá.
Você vai buscar então informações nas agências de risco, e vê o seguinte:

brasil rating fevereiro 2016

Você está quase desistindo. Para entender, abre o Google e digita “rebaixamento do Brasil” e aparece a reportagem abaixo:

rebaixamento não significa nada

Principalmente em se tratando de América Latina, os próximos passos são conhecidos.
Primeiro vão fritar todas as reservas internacionais existentes com a desculpa de “reanimar” a economia, como se fosse “investimento” estatal o que está faltando. Na verdade presenciaremos mais um espetáculo de destruição de valor, afinal eles não podem deixar essa folguinha para o próximo Governo. Terra arrasada, ou nada. Se houver herança, que seja maldita.
Depois disso buscarão alguma desculpa moral para dar um calote, ao melhor exemplo Argentina na época (para a sorte deles passada) de Cristina Kirchner.

abutres

Pedaladas Fiscais

A farra foi boa, deu certo, a reeleição é dela. E agora, como fechar a conta?
Como em todo país sério, temos uma Lei de Responsabilidade Fiscal. A administração consciente julga ser importante fechar as contas conforme o orçamento aprovado, afinal espera-se pelo menos respeito ao planejamento, dado que o dinheiro não é dos que o administram, mas sim do povo brasileiro.
Maquiar as contas é vedado por essa Lei, sendo essa infração a base para o pedido de impeachment que corre nesse momento na Câmara.
Você, sem qualquer conhecimento sobre administração pública, tente olhar o gráfico abaixo e ver se acha alguma coisa “um pouco fora da normalidade”.

pedaladas fiscais

Caso você tenha a curiosidade de entender porque e como isso é feito, não sou eu quem explicará; será o próprio procurador de Contas do TCU, no vídeo abaixo.

Mais uma fonte muito interessante para entender mais sobre as pedaladas AQUI.

Depois uma fonte para você entender como pagar pedaladas pedalando AQUI.

Assuntos que não abordarei

O ponto já ficou claro, então vou economizar um pouco. Ainda poderíamos falar de:

1. Petrobras em franco processo de destruição.
2. Empresas públicas em situação financeira deplorável.
3. Prejuízos e escândalos nos fundos de pensão estatais.
4. Indústria nacional em crise amplificada.
5. Caos nas finanças públicas dos estados, que sequer possuem verba para honrar salários.
6. CPMF como “solução”.
7. Impostaço.

Popularidade de um dígito, crise política à vista

Até aqui está muito clara a conjuntura que desembocou em uma crise econômica. Mas onde ela se transforma em crise política?

“O sucesso tem muitos pais, mas o fracasso é órfão.” ― John F. Kennedy

Toda essa gente que perdeu poder de compra, picou o cartão de crédito, não consegue mais abastecer o carro, que está desempregada ou conhece alguém que esteja, também vota!
Esse é o elo entre crise econômica e política, tão simples quanto isso.

popularidade Dilma Carta Cpital

popularidade Dilma gráfico
A blindagem messiânica do “partido dos pobres” ruiu, e junto foi a popularidade da presidente Dilma. Se o Parlamento nunca foi muito chegado dela, agora com menos de 10% de aprovação menos ainda.
Mentindo e ganhando, Dilma abriu a porta e as janelas para que a crise entrasse e ela fosse responsabilizada. O Governo estaria nu em praça pública.

“Se o inimigo deixa uma porta aberta, precipitemo-nos por ela.” — Sun Tzu

Até então, com argumentos limitados ao abecedário econômico e ao fato das eleições terem sido baseadas em falácias, o cenário já estava extremamente tenso. Como nada está ruim o suficiente para que não possa piorar, fatores externos poderiam atrapalhar ainda mais, e de fato atrapalharam.
Enfraquecida politicamente, o Governo de Dilma Rousseff e seu partido receberiam duras pancadas da “República de Curitiba” e das ruas no Brasil todo.

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Categorias: Política

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