CdM #7: Petrobras queima dinheiro com auditorias

Petrobras já gastou mais com auditoria do que recuperou com Operação Lava Jato, afirmam Andreza Matais e Marcelo de Moraes na Coluna do Estadão.

Você acharia isso um absurdo — de fato é — se não estivesse à par do Brasil de hoje. Por que tanto dinheiro gasto com auditorias sem efeitos correspondentes?

Na posição de acionista controlador, o Governo Federal indica grande parte dos cargos na Petrobras, inclusive no Conselho de Administração. Sabendo como funciona política, se você elege diretamente uma metade, sobre a outra metade automaticamente exercerá uma influência brutal.

“Na Petrobras, desde que me conheço como Petrobras, as diretorias e a presidência foram sempre por indicação política. Ninguém chega a general se não for indicado nas Forças Armadas. Então, as diretorias da Petrobras nos governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, quer seja nos governos do presidente Lula, foram sempre por indicação política. E fui indicado pelo PP para essa diretoria”, disse Paulo Roberto no depoimento.

Mauro Cunha Petrobras

Mauro Cunha, ex-membro do conselho de administração da Petrobras, já denunciava o aparelhamento das auditorias no início de 2015.

Ou seja, se sua diretoria comete safadezas que passam sob o nariz dos conselheiros, que por sua vez deveriam naturalmente fiscalizá-la, suspeita-se de quem os indicou. Se quem indicou ambos é o mesmo alguém — no caso o Governo Federal — as suspeitas se agravam ainda mais. De suspeita à confirmação existe um caminho, a Lava Jato. Hoje começa a ficar claro quais eram os critérios e intenções por detrás das indicações.
A motivação não era criar uma empresa sadia financeiramente, lucrativa e com um diferencial de valor sustentável junto a seus clientes. Na mente dos que administram a Petrobras, a saúde financeira da empresa pode ser ruim desde que a do Governo seja boa; basta que o Tesouro pague a conta depois, enquanto o acionista controlador (Governo) se comporta como quem não está preocupado com os minoritários. Isso ficou muito claro quando prejuízos sucessivos foram sendo assumidos para utilizar a empresa como válvula de controle inflacionário. Ora, se minoritários e controlador possuem objetivos distintos, algo não funciona bem.

Então a empresa troca sua executiva por novos nomes, indicados pelo mesmo agente que outrora indicou os anteriores baseado em objetivos sombrios. Esse pessoal contrata uma auditoria independente, que naturalmente exigirá uma remuneração bem razoável pelos stress e risco de se expor dessa maneira; será uma auditoria cara.
Ora, em uma empresa normal você contrata uma auditoria para encontrar o problema, que então deverá ser eliminado.
É aqui onde começam os complicadores que explicam porque tanto dinheiro está sendo jogado fora com auditorias que, independentemente da competência dos auditores, não têm como dar certo.

O objetivo é realmente descobrir a verdade através de auditorias? Há representantes dos acionistas minoritários — quem de fato se preocupa com a Petrobras enquanto empresa — que discordam frontalmente disso, e que já tiveram problemas com o Governo.
Vamos supor que o problema na verdade é o próprio Controlador. Como que a auditoria por ele contratada dirá isso? Como será trocado o acionista controlador, no caso o Governo Federal, se a empresa é pública?

Estamos assistindo à falência do modelo de gestão estatal, que está se manifestando através da destruição de valor no formato de demissões, fundos de pensão deficitários, auditorias improdutivas e produto caro.
O Mercador acha que a natureza do problema é a presença do Governo como acionista, por isso entende que o Estado não pode ser acionista de empresa alguma. Acredita também que essas iniciativas são na verdade cortina de fumaça para facilitar a vida da Petrobras nos processos que carrega nas costas no Brasil e nos EUA, além de amenizar a péssima imagem junto ao mercado. Ele também imagina que deve ser difícil trabalhar em um ambiente onde a pressão não ocorre pela busca da verdadeira verdade, mas sim da conveniente.

Nota: Não questiono a idoneidade ou a capacidade técnica das auditorias. Me pergunto se há ambiente para que seja desempenhado um bom trabalho.

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