CdM #20: Globo, Seleção e o início do fim do monopólio da imagem

A Seleção Brasileira de Futebol jogará, nos próximos dias 9 e 13, amistosos com as seleções de Argentina e Austrália, respectivamente. Nada fora do padrão, exceto o chocante detalhe de que tais jogos não serão exibidos pela Rede Globo.
Até ano passado a emissora transmitia com exclusividade os jogos da Seleção Brasileira, e essa reviravolta — na minha opinião histórica — custou inclusive a cabeça de um diretor. Para mais detalhes recomendo a leitura da reportagem da Folha.

Imagino que esse impasse não demorará mais do que algumas semanas para ser “resolvido”, mas o que mais me chamou a atenção foi o seguinte:

Para os dois amistosos na Austrália, a Confederação tenta fechar acordo com o Facebook para mostrar as partidas pela internet, […]

Recordo o leitor que em 19 de fevereiro deste ano Atlético Paranaense e Coritiba se recusaram a vender seus direitos de imagem à Globo, propondo então transmissão própria em seus canais YouTube e Facebook. A Federação Paranaense — que na prática representa os interesses da CBF — então proibiu a execução do jogo minutos antes de seu início, com estádio cheio e jogadores em campo. Aquilo que foi uma tentativa de retalhar a inovação gerando desconforto aos clubes — que teriam de jogar sem televisionamento — rapidamente tornou-se um tiro no pé da Federação, pois a decisão dos clubes de não ceder à pressão foi apoiada pelos torcedores presentes e remotos, que aplaudindo viram os jogadores se retirarem do campo. As imagens estão disponíveis.
O jogo foi remarcado e aconteceu como deveria, online. O confronto conhecido como Atletiba entrou para a história como o primeiro transmitido de maneira independente pela internet. Ironicamente, talvez o Atletiba mais importante da história foi aquele que não aconteceu.
Mesmo com patrocínios pontuais e um modelo em desenvolvimento, os níveis de receita da transmissão online se equipararam aos da transmissão via televisão tradicional, além da independência política e esportiva decorrente de tal postura. Que pese o fato da televisão ser um modelo consagrado, enquanto a transmissão online uma inovação em fase de testes.

atletiba-youtube-facebook

Hoje vejo com espanto a CBF cogitar, para transmitir seu produto mais valioso, um modelo o qual rechaçou há menos de 4 meses. Ok, provavelmente trata-se de uma jogada política para melhorar as condições contratuais com a Globo, mas o conhecimento público de uma negociação entre CBF e Facebook para transmissão de jogos da Seleção Brasileira torna esse tipo de iniciativa politicamente mais fácil aos clubes; fica difícil proibir ou lançar demagogias contra algo que a própria CBF tentou.
Seja lá qual for a intenção da CBF nessa movimentação, ela consciente ou inconscientemente abriu um precedente que pode acelerar um processo que, ao meu ver, já era irreversível.

De duas coisas tenho certeza: daqui uma dezena de anos a maneira como o conteúdo televisivo é transmitido mudará radicalmente, cada vez mais on demand e via internet, e também que muito poder político será comprado para atrapalhar isso.
Livre concorrência e inovação quebram monopólios, enquanto o Governo os fomenta e defende. O caso Uber está aí como exemplo.

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Categorias: Coluna do Mercador

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