CdM #19: Discordar é viver, ao meu amigo JP

Às vezes em meio aos ringues armados, principalmente em terreno digital, eu fico impressionado com algumas coisas que leio.
Pergunto-me se seriam meus olhos, ou se realmente minha página no Facebook é o território mais intelectualmente sadio que encontrei na internet; talvez eu esteja começando a acreditar que ela é necessária, pelo menos para mim.

Neste meio de política e opinião há quem paga, e paga caro, para ter plateia. Pagam para que leiam, pagam para que publiquem, e pior, pagam para que concordem. Não são poucos os que pagam, e são vários os que recebem para isso.
Não que tal atitude seja errada, mas certamente não é honrosa. Massagem para egos carentes, apenas.
Ser “seguido” por quem discorda de você, de maneira positiva, é uma honra.

Meu amigo pessoal João Paulo Scalão, dos (nem tão) velhos tempos de Unicamp, postou uma dessas pérolas em complemento à minha coluna do dia anterior, onde eu descrevi minha decepção após os grampos comprometedores do senhor Aécio Neves.
A sobriedade com a qual ele me critica, recheada de argumentos que carregam sua opinião, é de uma qualidade tão rara na rasa internet de hoje que eu resolvi postar aqui para que você leitor, e ele, e eu também, possamos ler isso mesmo que o Facebook desista de ganhar dinheiro.

Observe, não se trata de concordar ou discordar, mas sim de ter a capacidade e a coragem de interagir nesse nível usando a cabeça, o idioma português e a rede mundial de computadores.
Sobre os argumentos, deixo para uma próxima. Não vou estragar este post falando de política.

Abaixo segue o texto, na íntegra.

 Meu caro amigo Mercador, primeiramente, parabéns pela coragem desse post. É esse tipo de atitude esperamos de pessoas coerentes com seus ideais. Quero que saiba que talvez minhas palavras aqui vão soar duras, mas infelizmente o momento exige. Não preciso, tampouco, frisar que o que vou dizer aqui não deve ser nunca levado ao lado pessoal. Você é inteligente suficiente para saber que nossas diferenças politicas e ideológicas em nada interferem no sentimento de admiração e amizade.

Lembro-me bem, Mercador, que pouco após as eleições de 2014, quando os derrotados nas urnas se negaram a aceitar a eleição de Dilma e partiram para o tudo ou nada, este blog foi uma das poucas vozes que defendeu o respeito às urnas e a construção de uma oposição democrática ativa. Infelizmente, percebi tempos depois que você se rendeu ao terceiro turno. Não sei o que o levou a se misturar com as hostes raivosas que defendiam até a volta da ditadura militar. Não sei se foi o deslumbramento com as grandes manifestações organizadas pelo MBL e afins, que indiscutivelmente levaram muitas pessoas às ruas, ou se foi frustração (que eu também senti) com o estelionato eleitoral praticado pela presidenta, ou algum outro motivo. Mas só sei, Mercador, que você abandonou sua coerência ao apoiar o golpe.

Foi um golpe de estado, Mercador. Você sabe que foi. Você sabe que as pedaladas fiscais foram um grande pretexto para tirar a presidenta democraticamente eleita. Um belo pretexto com artificialidades para parecer legítimo. Não vou perder meu tempo aqui discutindo o mérito do impeachment. Você sabia que no nosso regime, talvez imperfeito, destituir um presidente é algo gravíssimo. Mas você apoiou o golpe, Mercador. Não só você, mas várias pessoas integrantes de importantes instituições brasileiras, como Ministério Público, Polícia Federal e até o STF. Inflamados por uma mídia golpista que dispensa apresentações, foram em frente com essa loucura. Um golpe comandado por um bandido do calibre de Eduardo Cunha, cujo cinco minutos pesquisando no Google bastariam pra saber que tratava-se de um corrupto com extensa ficha corrida. Um golpe que colocou no poder uma quadrilha de corruptos incompetentes, também de extensa ficha corrida, colocada na linha de sucessão por erro gravíssimo do PT e de Lula. Que no dia seguinte ao golpe chamou para fazer parte do governo todos os derrotados da eleição de 2014. O que mais me indigna é que não bastou nem o agrado que Dilma fez ao colocar o Joaquim Levy no comando da economia. Não bastou implementar um ajuste fiscal quando estávamos a beira de uma recessão para preservar os ganhos do mercado. Era preciso tomar de assalto a presidência e bagunçar de vez com a tênue ordem democrática que vigorava desde 1994.

Espero, meu caro amigo Mercador, que o voto dado ao candidato do PSDB em 2014 decorra de leve ingenuidade somada com ideologia. Espero que não tenha usado a régua da moralidade para escolher seu candidato. Se esse fosse o parâmetro, nós só conseguiríamos votar nas nossas mães, e em ninguém mais. Pois, se estivesse realmente valorizando a honestidade e moralidade do Sr. Aécio Neves, bastaria algumas horas de pesquisa para notar que havia muitas evidências de tratar-se de mais um macaco velho da política. Hoje vemos que o caso é muito mais grave do que imaginávamos, com possíveis ligações até com o tráfico de drogas. Sei que estamos muito mal em termos de lideranças políticas promissoras, tanto na esquerda quanto na direita, mas Aécio Neves era um dos piores do pleito de 2014, em quase todos os quesitos.

Podemos até concordar que a régua da moralidade também não deve ser aplicada ao PT, mas em nível de comparação com o PSDB e o PFL (DEM, PSD), a diferença é brutal, mascarada por uma campanha intensa de criminalização do Partido dos Trabalhadores desde 2005, através da grande mídia. Mas isso é assunto para outras discussões.

Meu caro amigo Mercador, torço para que você tenha caído em si e retorne à sua coerência e aos seus ideais, baseados sempre na defesa da democracia e da liberdade. Ambos desejamos um país melhor, e digo mais, desejamos PARTICIPAR da construção de um país melhor, um país que saiba aproveitar seu imenso potencial para distribuir qualidade de vida aos seus 200 milhões de habitantes. Sei que discordamos, em muito, de como deve ser o caminho até chegarmos ao país que sonhamos. Mas isso não impede que juntemos nossas forças frente a esse momento dramático que vivemos.

Afaste-se desses grupos que só sabem destilar ódio e antipetismo, decorado com um discurso medíocre anti-estado. Afaste-se do Olavo, do MBL, do fanatismo bajulador ao Sergio Moro. Afaste-se do discurso raso de que o único problema do Brasil é a corrupção. Afaste-se do Caiado, do Bolsonaro e dessa farsa do João Dória. Eles estão pouco se lixando para o país que nós queremos para as futuras gerações. Você é muito mais capaz e inteligente que todos eles, que tudo isso. Seja uma referência coerente de como o capitalismo pode ser aplicado à realidade brasileira para efetivamente melhorar nosso país.

E ao menos por agora, venha para o lado de cá. Diretas já, pra ontem.

João Paulo Scalão Martins

JP, obrigado.

“[…] a boca lisonjeira provoca a ruína.” – Provérbios 26:28

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