CdM #15: Dunga, Gilmar, Del Nero e uma lição de política

A eliminação da seleção brasileira de futebol na Copa América é fato consumado há mais de uma semana. Sem entrar no mérito futebolístico do acontecimento, eu gostaria de registrar um raciocínio rápido aqui na Coluna, linha que encontrei lendo reportagens sobre o acontecimento. Entendo haver nisso uma lição política importante, cuja demissão de Gilmar Rinaldi e sua equipe muito bem ilustrou.

Para muitos — inclusive eu — era nítido que o Brasil vinha pavimentando caminho para mais um 7 a 1; bastaria algum tempo para que um adversário a altura de tal resultado se apresentasse e enterrasse um pouco mais a moral da nossa seleção. Assistindo atônitos ao esfarelar do futebol brasileiro materializado em sua seleção, que até 2014 foi símbolo do orgulho nacional mundo afora, era quase unânime o clamor pela saída de Dunga e sua respectiva comissão técnica.
Com a eliminação da Copa América, em um jogo duro (de assistir) contra o Peru, a pressão intensificou-se. Criado estava, então, um cenário de análise interessante: uma equipe incapaz de satisfazer as demandas do público, porém revestida de poder por pessoas ou entidades imunes, pelo menos temporariamente, a tal pressão popular.

forca-Dilma-DungaQuem acreditava que Dunga renunciaria talvez não o conhecesse. Não apenas por começar com D e ter um nome de 5 letras, Dunga e Dilma possuem muito em comum. Idem às respectivas equipes. Abaixo uma frase de Gilmar Rinaldi, coordenador de seleções, após o jogo e enquanto todo mundo queria vê-los chorando desesperados:

Temos a certeza de que ele [Dunga] está fazendo um trabalho bem feito, sério, limpo e transparente. Todo mundo pode acompanhar. Discordo que colhemos só maus resultados. Tivemos bons resultados contra grandes equipes, mas problemas na Copa América.

Ficou claro o desalinhamento com a leitura (oportuna) da realidade. Enquanto todos achavam a qualidade péssima e digna de um novo 7 a 1, Gilmar dizia que o trabalho estava bom. Ora, criticaria ele seu próprio trabalho? Começou a queda de braço pelo poder.
Estava claro que ele não abriria mão de sua posição, como quando ele disse que “não há nada ou ninguém que tire Dunga da Copa de 2018“.
Foi para inconformismo geral e como demonstração de força diante das críticas, uníssonas em programas esportivos e conversas desimpedidas, que Gilmar declarou:

O Dunga está definido há dois anos como treinador da Olimpíada. Para o meu planejamento, continua a mesma coisa. Tanto que estamos aproveitando esse atraso do voo para definir alguns nomes da lista de 35 jogadores.

A lição começa agora.

Todos jogavam a toalha porque a declaração de Gilmar enterrava a esperança, mesmo que talvez infundada, de que um novo técnico capaz tomaria o lugar de Dunga. Esse era o espírito da crítica, que parecia não contar com a rasteira que viria. Importante ressaltar, para correto entendimento, que todas as afirmações relacionadas a Dunga se fundamentavam em Gilmar Rinaldi. Ainda, longe do caderno de esportes e já nas páginas policiais políticas do jornal, lia-se que o presidente da CBF estava preocupado com problemas mais sérios do que futebol; Del Nero estava isolado e ninguém esperava muito dele.
Eis que então aproximadamente 24h depois das seguras declarações de Rinaldi, Del Nero o demitiu junto com Dunga e toda a comissão técnica da seleção brasileira, uma faxina geral. A multidão de declarações e análises esfarelou sob o poder do dirigente máximo da CBF. Quem parecia morto renasceu, mudou o cenário, e voltou à sua hibernação.
Ressalto que não tenho a ilusão de que Del Nero fez isso por algum tipo de consciência esportiva, afinal os problemas do futebol brasileiro vão muitíssimo além de sua seleção nacional masculina. Certamente o fez porque não está em condições de fiar incompetentes sem ter em contrapartida rendimento de capital político. Gilmar e Dunga não lhe renderiam mais nada, então foi o momento de descartá-los e aliviar os holofotes.

Não lembro quem era o piloto de F1 — acho que o Schumacher — que afirmava olhar para o segundo carro à sua frente, ao invés do primeiro como de costume, para que o observando fosse possível prever o comportamento do intermediário e, então, ultrapassá-lo com facilidade. Seria a versão rebuscada do ditado “um olho no gato, outro no peixe”.

Lição: Quem está quieto e isolado não está morto, muito menos politicamente.
Não por acaso essa leitura serve para figurões e entidades abstratas como Fernando Henrique Cardoso e Lula fora da presidência, Sarney fora do Senado, Eduardo Cunha licenciado ou cassado, Partido Comunista pós Guerra Fria. Acreditar que silêncio implica em não existência é uma ilusão ginasiana, erro que não pode ser cometido em análises políticas sérias. Uma lúdica lição, em parábola de futebol.

Continue Lendo

Eu, o Taxista e o Uber Conversei pessoalmente com um taxista para saber o que ele achava do Uber. O relato completo você lê nesse post.
CdM #8: “Eu faço dinheiro estudando a burrice humana” Carl Icahn seria homem mais rico do mundo se fosse brasileiro.
Casamento Gay e Liberdade Quem milita contra o casamento gay não está defendendo a família tradicional, mas afrontando o direito às liberdades individuais.

Newsletter do Mercador

Receba conteúdo exclusivo por e-mail

Respeitamos sua privacidade e não mandamos spam. Você pode cancelar sua inscrição quando quiser.

Categorias: Coluna do Mercador

Tags:

Deixe um Comentário

Seja o primeiro a comentar!

avatar
wpDiscuz