CdM #11: Era Temer, uma análise inicial

Consumada no Senado a votação pela instauração do processo de impeachment por 55 votos a favor contra 22 contra, nosso presidente interino agora é Michel Temer. Muitos podem estar impressionados, mas cá entre nós, não há surpresa alguma. Depois das derrotas com folga em todas as etapas, não era de se esperar nada diferente.
dilma-nocaute-impeachmentUma rápida recapitulação:

Comissão da Câmara: 38 x 27 (precisava de 33)
Plenário da Câmara: 367 x 137 (precisava de 342)
Comissão do Senado: 15 x 5 (precisava de 11)
Plenário do Senado: 55 x 22 (precisava de 41)
Julgamento do Senado: ? x ? (precisa de 54)

O ponto central da votação não foi passar ou não passar, qualquer espectador sabia que o afastamento de Dilma era fato consumado. A pergunta foi se passaria com mais de 54 votos, ou seja, o necessário daqui a (no máximo) 6 meses para fechar a conta de uma vez por todas.
Ora, se com a caneta na mão e mídia à vontade Dilma não fez sequer os 54 votos, agora afastada e totalmente isolada trata-se de uma tarefa que beira o impossível. Se Temer normalizar a situação econômica e sua popularidade simplesmente crescer, será totalmente impossível. A opinião do Mercador é que o governo Dilma acabou e ela não volta mais.

Há muita coisa para comentar, não serei detalhista. Vou focar na minha opinião sobre os principais temas e em recortes emblemáticos do discurso do presidente Michel Temer.
Se você ainda não viu, recomendo muito que assista o primeiro pronunciamento oficial, diga-se de passagem redigido de forma cirúrgica.

Resgate da confiança interna e externa

Resgatar a confiança interna é uma necessidade elementar, Dilma tentou (de forma caótica) retomá-la e não conseguiu. Temer foca também na confiança externa, pois entende que é necessário um trabalho intenso na diplomacia brasileira, praticamente nula nos últimos anos e limitada aos interesses da UNASUL (uma grande porcaria).
Não se passaram nem 48 horas e o novo chanceler José Serra já entrou com os dois pés no peito dos bolivarianos e mostrou qual será o tom do novo governo com relação a esse pessoal. O Mercador aprova essa conduta.
Acredito que nações de grande porte não se manifestarão diretamente antes do impeachment definido. Uma vez Dilma impedida, certamente a política externa buscará um realinhamento com as nações do norte e as grandes economias do mundo, a saber Estados Unidos, União Europeia e China. A UNASUL será largada às traças ou descartada, assim como o Mercosul, e o Brasil buscará participação em uniões comerciais efetivas, mantendo ainda relação com bons parceiros comerciais locais como Argentina, Paraguai, Chile e México.

Temer coloca empresários e trabalhadores em pé de igualdade

Quando Temer diz que é necessário reorganizar o classe produtiva — não que eu ache que qualquer governo tenha essa capacidade — ele deixa claro que ela é formada pelo conjunto de “empresários e trabalhadores”. Tal junção não é vista no Brasil há 13 anos, pois no discurso da esquerda funcionários e empresários são quase que duas raças humanas distintas. Lógico, o que une as duas pontas é o empreendedorismo, tido em países de ideologia esquerdista como um pecado inferior somente ao lucro, este último sendo a materialização da exploração humana.
Com uma visão negativa da atividade empreendedora, a libertação é um emprego público. Aos menos afortunados resta a servidão diária a um patrão, que não é um capataz porque o Estado assim não permite. O Mercador acha que essa turma na verdade não gosta é de trabalhar.

A continuidade dos programas sociais (que Dilma disse que acabariam)

“Portanto reafirmo, e o faço em letras garrafais, vamos manter os programas sociais, o Bolsa Família, […] são projetos que deram certo e portanto terão sua gestão aprimorada […]” — Michel Temer em 12/05/2016

Somente os inocentes imaginavam que Temer cortaria o Bolsa Família, ele não é louco e conhece a sociedade brasileira. Certamente fará uma auditoria, há espaço para isso, mas não o encerrará.
Vejo aqui um grande erro estratégico de Dilma, pois proclamando um “apocalipse dos pobres” que não virá, seu discurso virou pó. Certamente ela não teria sido reeleita sem a clássica mentira — que já ganhou 3 eleições — de que “eles vão acabar com o Bolsa Família”.

“Bons políticos não destroem o bom legado, o aprimoram.”

Mais uma cortada importante do Presidente.
Essa afirmação tira o peso do “foi o PT quem fez” para coisas positivas. Ficará implícita a seguinte argumentação: “Ok, vocês fizeram, mas destruíram tudo. Eu mantive o bom, além de arrumar o que vocês quebraram“.
Observe que no discurso de Temer ele vai, ao longo das frases, se munindo e se blindando contra as balas que ele sabe que virão em sua direção mais cedo ou mais tarde.

Continuidade da Lava Jato e seus 9 suspeitos

Temer afirma não apenas que a Lava Jato deve continuar, mas que é um exemplo. Em política, no entanto, sabemos que existe uma distância razoável entre dizer e fazer, ainda mais para quem indica 9 ministros suspeitos na operação. No entanto repito, Temer não é trouxa. Ele sabe que a Lava Jato possui envergadura jurídica e popular maior do que ele e Dilma juntos, ou seja, vida própria. Poderão até tentar uma esquiva ou outra, mas o desfecho — que está nas mãos do judiciário — vai além de sua alçada. Resistir é inútil, e pode custar sua cabeça.

Religare

Mesmo que gozando dos mesmos votos que Dilma ganhou, Temer não foi o escolhido direto e sabe disso. Precisará conquistar pouco a pouco a simpatia, ou pelo menos a tolerância, do público geral. Na classe média e acima ele já tem (tolerância) quase que na totalidade, porém a classe baixa — excluindo os que leem o Mercador — ainda temem por mentiras como a extinção do Bolsa Família. Será necessário atingir esses cidadãos no curto prazo.
Poucas coisas atingem classes mais baixas tão bem quanto a religião; poucas bancadas personalizadas são tão grandes e influentes quanto a “bancada evangélica” na Câmara dos Deputados. Logo, para quem quer popularidade e governabilidade, será “uma bênção” ter esse pessoal ao seu lado. Temer, quando cita a religião (e seu verbo latino originário religare), acena nessa direção.

Pacto Federativo

O Pacto Federativo, constituído em cláusula pétrea na Constituição, define liberdades e independências entre o governo central e os governos estaduais e municipais. Na prática, no entanto, o governo central utiliza cada vez mais ações econômico-financeiras para limitar a liberdade dos estados e municípios, concentrando portanto mais poder e fazendo com que nossa Federação pareça uma alegoria. Quando olhamos os Estados Unidos, por exemplo, temos estados que divergem substancialmente até mesmo em presença de pena de morte ou não, ou legalização da maconha.
Ora, em um país tão politicamente dividido quanto o nosso, nada melhor do que uma notável federação. Todo aquele discurso segregacionista do suposto norte contra sul já estaria resolvido, ou seja, cada estado ficaria com grande parte de sua renda e legislaria com grande independência. Os brasileiros então poderiam optar por morar ou cometer crimes nos estados de sua preferência. O Mercador apoia essa ideia, com urgência.

Reforma Ministerial

Temer reduziu de 32 para 23 ministério, ou seja eliminou 9. É uma pasta com nome mais bonito do que a outra, pura demagogia que serve apenas para comprar votos no Parlamento.
A informação pode estar desatualizada, mas para termos uma ideia de como a baderna é intensa, Dilma trocou de ministros 86 vezes desde que assumiu em 2011, ou seja, um ministro novo a cada 22 dias (até 22/04/2016).
Então provoco o leitor: Adianta ter ministério das mulheres, do índios, da pesca, da cultura, do lazer, da informática, etc., se eles são tratados dessa forma lamentável?

tetasMinistérios e secretarias extintos:

– Secretaria de Portos da Presidência da República
– Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República
– Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
– Controladoria-Geral da União (agora Ministro de Estado da Transparência, Fiscalização e Controle)
– Ministério da Cultura (fusão com o Ministério da Educação)
– Ministério das Comunicações
– Ministério do Desenvolvimento Agrário
– Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (fusão com o Ministério da Justiça e Cidadania)
– Casa Militar da Presidência República

Ministérios que mudaram de nome:

– Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior em Ministério da Indústria, Comércio e Serviços
– Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações
– Ministério da Educação em Ministério da Educação e Cultura
– Ministério do Trabalho e Previdência em Ministério do Trabalho
– Ministério da Justiça em Ministério da Justiça e Cidadania
– Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome em Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário
– Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão em Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão
– Ministério dos Transportes em Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil

Ministérios criados:

– Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle
– Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República

Cargos comissionados, blogueiros companheiros e a militância paga com dinheiro público

Esse item, na minha opinião, explica mais de 75% do desespero averiguado 24h depois de Temer assumir. Não estamos falando de trocados, mas de milhões de reais que eram distribuídos a canais de informação e desinformação. Quais os critérios? Use sua imaginação.
Vou me alongar nesse item.

Na opinião geral, a Lei Rounet virou moeda de troca por apoio político através de artistas. Não afirmarei isso categoricamente pois não posso provar, mas se trocam ministérios, contratos em quase todas as estatais e doações de campanha em troca de apoio político, por que seria diferente com incentivos fiscais?

Na parte menos nobre da militância, os blogueiros companheiros e os MAV (Militância em Ambientes Virtuais). Nessa casa de máquinas são geradas boa parte das mentiras, calúnias, reportagens adulteradas, desinformação em mídias sociais, etc. Enfim, são os capangas dispostos a fazer o trabalho sujo atrás de um perfil oculto. A safadeza é tamanha que até computadores do Planalto já foram pegos adulterando perfis na Wikipedia.
Aqui falo por experiência própria. Na página do Mercador no Facebook diariamente aparecem perfis genéricos, com 10 ou 20 amigos apenas, ofendendo todos os participantes ou tentando atrapalhar o fluxo de conversação. O dedo que aperta o botão bloquear chega a tremer, por isso saiba que se você fizer uma página de política no Facebook a higienização precisará ser diária.
Enfim, essa é mais uma “fonte de renda” que Temer cortará, e espero que a faça com urgência.
Tenho certeza absoluta que dirão que trata-se de censura, mídia chapa-branca, etc. O Mercador não está nem aí para isso, aqui é tudo caseiro e todas as aquisições são feitas com o fruto do trabalho diário, e não dos favores de governo algum.

Via cargos de confiança, ou cargos comissionados como costumam ser chamados, a elite da militância. Sem necessidade de concurso e qualificação prévia, gozando de salários mais carnudos e posições estratégicas, essa “boquinhas” ficam sob medida para comprar o apoio fora do Parlamento. Confira abaixo o crescimento do artifício:

cargos-comissionados-dilmaA equipe de Temer quer cortar 4 mil cargos comissionados, e certamente irá trocar as pessoas de outros milhares.
Pense você, sem curso superior ou experiência e sabendo que no mercado de trabalho dificilmente conseguirá um salário superior a 3 mil reais, sendo despedido depois de 13 anos recebendo salário de até R$ 21 mil com bônus que podem acabar totalizando R$ 77 mil por mês. Desespero? Pois é, bem-vindos ao mundo dos mortais.

Auditoria completa, esqueletos para fora

O Presidente sabe que virá sobre ele o discurso demagógico do lulopetismo, afirmando com hipocrisia típica que todos os problemas são sua cria. Esse fenômeno já começou em menos de 12 horas de mandato interino, com direito a notícias adulteradas e fora de época inclusive.
Enfim, contra a mentira nada melhor do que a verdade, e aqui surge também uma ressalva na questão da credibilidade. Penso que Temer que dar um choque de realidade para colher um choque de credibilidade. A ordem será abrir a caixa preta de Dilma, por dois motivos: primeiro ou ele coloca o bode na sala agora, ou no futuro presumirão que é sua cria; segundo pois se ele não abrir a caixa agora outro virá abri-la no futuro, e poderão surgir podres envolvendo seu PMDB sem que ele possa contorná-los ou mesmo precaver-se.
Já foram ventiladas auditorias em programas sociais para expor cortes já realizados, e as potencialmente destrutivas auditorias em bancos públicos. Há estimativas (conservadoras a priori) de que a soma dos esqueletos possa chegar à bagatela de R$ 600 bilhões.

Dificuldades e Olimpíadas

formiga-cigarra-socialismo

É certo que Temer tem um belo pepino nas mãos, e desembaraçar esse imbróglio não é uma tarefa fácil. Vale ressaltar que se ele cogitar concorrer 2018 perderá boa parte de sua base de apoio e não governará, porém não acho que o fará como candidato direto, a menos que sua popularidade cresça muito, o que acho pouco provável.
Em seu lugar eu seria o mais transparente possível e jogaria a realidade no colo de cada brasileiro, afinal todos já perceberam — lendo o jornal ou sentido inflação e desemprego — que a situação é muito séria e precisa de tratamento urgente. Resta saber se ele será capaz de aplicar o tratamento de forma digna.

Mais uma vez na nossa história teremos de nos defrontar com um paradigma cultural, que é resistir ao canto da cigarra e convencer boa parte do Brasil que quem vence imita a formiga. O problema é que o inverno já chegou e nós estamos contando em cima das árvores, nus, enquanto o estômago já ronca.

Daqui aproximadamente 3 meses iniciam-se os Jogos Olímpicos, momento de marketing para o bem ou para o mal. Os olhos do mundo cairão sobre o Brasil, saber usar essa oportunidade pode ser o triunfo ou o fracasso. Penso que Temer tentará transformar o evento em um recomeço, um marco. Se conseguirá, ninguém sabe.
Resta também saber se a Era Temer durará algumas semanas, alguns anos, e qual será seu legado. As cartas estão lançadas.

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