CdM #10: Waldir Maranhão, o homem bomba na Jihad do impeachment

Quando o líder interino da Câmara, o inexpressivo deputado Waldir Maranhão (PP-MA), anula — ou pelo menos tentou anular — uma sessão de votação transmitida em rede nacional, observamos como é o jogo político em suas entranhas. Não há mais vergonha em mostrar como as coisas funcionam no submundo da política, ou a necessidade é tão grande que a vergonha não é mais uma opção. Essa não é uma peculiaridade brasileira, mas — ainda bem! — que nossas instituições republicanas têm rigidez suficiente para ser necessário torcer a Constituição ao invés de torcer pessoas na rua.
Vou tentar analisar quais são as consequências e equívocos de leitura desse cenário, pois as motivações por trás disso são um tanto óbvias.

Waldir Maranhão acuado, alguém precisava oferecer um alívio

Assim que Waldir Maranhão assumiu com interino — após Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ser afastado pelo STF — iniciou-se um processo para descartá-lo. Tanto situação como oposição começam a pressioná-lo para que renunciasse, tratando-o como carta fora do baralho; eis o primeiro erro. Waldir Maranhão mostrou desconforto e disse que, conforme postura esperada para 99.9% dos seres humanos, não abriria mão do poder. O referido senhor pertence ao mediano Partido Progressista (PP) que, como a maioria dos partidos desse porte, sobrevive na base da barganha.
Atenção especial ao recorte do Estadão, à época:

“De acordo com esse assessor, o presidente em exercício da Câmara já recebeu o apoio de “mais de 100” deputados nesta quinta-feira, após assumir o comando da Câmara interinamente. A maioria dos apoios vem de deputados do PT, PCdoB e PSOL, partidos que fazem oposição a Cunha na Casa.” – Reportagem do Estadão

Waldir Maranhão reuniu-se com aliados de Dilma e com o advogado-geral da União, senhor José Eduardo Cardoso (vulgo JEC), antes de tentar a anulação. Falar o quê?

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Não vou me estender analisando a motivação, pois é trivial. Se você leu os parágrafos acima, já entendeu tudo.
Vamos analisar as atuações.

Acuado, tudo ou nada

Para quem está prestes a perder tudo — leia-se governo do PT e seus satélites — qualquer negócio é negócio, afinal não existe parte nenhuma que seja maior que o todo. Imaginem o que estariam dispostos a oferecer, mesmo que para uma nova tentativa de barrar o processo na Câmara.
Waldir sabia que seria descartado, afinal seu mandato interino teria pouco mais do que 6 meses de validade. Como o nada ele já tinha, e respeito à democracia aparenta ser apenas tema para discursos e postagens no Twitter, ele deve ter pensado “it’s showtime“. Conseguiu.

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Essa segunda-feira, pelo menos a primeira metade da tarde, foi nula. Eu olhava ao lado, cada um dava F5 em uma página de política diferente. Quando Renan abriu sessão no Senado, colegas comemoravam.
Não era nem 15h já haviam colunas oficiais no Estadão sobre uma decisão tomada havia menos de 3 horas.
Aliás coloco abaixo a página de capa do Estadão online, às 14h50; observe minha análise.

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O fato é que ninguém, nem o STF, queria mais colocar as mãos nisso. Encontraram um louco para não só colocar as mãos, mas o corpo inteiro; vestiu a touca e pulou na água fervendo. Dizem que há louco para tudo; quem duvidava dessa afirmação, não duvida mais.

Bastidores

Alguns cogitam que Cunha esteve envolvido nisso. Se esteve, duvido que o faria para ajudar o PT, dado que sua “anistia” não está nas mãos de um partido que mal consegue se defender. A jogada magnífica, aí digna de uma destreza que eu só observo nele, seria incentivar Maranhão a tomar uma decisão sabidamente infundada e nula, queimando irremediavelmente aquele que ele queria afastar e não pôde.
Se a jogada existiu, e foi essa, e o ato de Maranhão for de fato nulo, houve maestria sem igual; pois de fato, depois dessa, Maranhão dá adeus ao eixo centro-direita. Diga-se de passagem, ele já pode começar a buscar outro partido, pois o seu já iniciou um processo de expulsão, e seu filho que é médico e mora em São Paulo perdeu sua renda mensal oriunda do Tribunal de Contas do Maranhão. Dos problemas que estão por vir, talvez o menor seja o processo que ele ganhará no Conselho de Ética.

Até o momento, só tenho a crer que foi um ato falho; inicialmente Renan manteve sessão no Senado, mandado de segurança seria (ou será) emitido, Lula já falava como quem sabia que trataria-se no máximo de um ganha tempo, até que por fim Renan criticou ponto a ponto da “peça” elaborada e ainda deixou um sarrinho no final.

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Renan diz: “Segue o jogo”

Jogando-se às piranhas achando que viraria rei, se por algum tipo de benefício escuso, ou se por pura burrice de quem creu naqueles que mentem até enquanto dormem, Waldir pode ter deitado em uma cama de pregos. Se foi Cunha quem montou a cama, jamais saberemos; caso tenha sido, obrigado.
Resumindo: Na Jihad do impeachment, Waldir Maranhão se cadastrou para homem bomba. Ele se explodiu, agora resta saber se o impeachment explodiu junto com ele.

Tapetão?

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Na opinião do Mercador, seria necessário ter o tema alinhado com Renan para fazer esse mini golpe funcionar. Quando eu li a notícia confesso que temi que esse fosse o plano, rolar a bola para Renan marcar contra, afinal é o que ele vinha tentando há tempos. Daí entendo que foi fundamental a intervenção direta de Temer, movimento político que pode ter salvo o processo de impeachment.
Os próximos passos são os de sempre: JEC vai fazer o terror jurídico, Dilma vai falar do que ela entende ser democracia e continuar suas viagens pelo país enganando o povo, a oposição vai pedir a cassação do Waldir, STF vai enrolar e dizer que judicialização da política não é uma coisa boa, etc.
Suspeito que o PCdoB, ou seja o Partido Comunista do Brasil, continuará aparecendo nas propagandas de televisão falando de democracia. Veja bem, ou eles não sabem o que é comunismo, ou não sabem o que é democracia (risos).

Enfim, ainda não dou o tema por encerrado. A oposição que abra os olhos, JEC e sua trupe não estão de brincadeira.

“Se uma brasa é deixada acesa, por mais debilmente que arda, um incêndio acabará irrompendo.” — trecho da Lei nº 15, do livro ‘As 48 Leis do Poder’, de Robert Greene

Apenas para descontrair…
Um colega me perguntou se eu havia assistido à 4ª temporada de House of Cards. Digo a vocês o que eu disse a ele: “Perto de Brasília, House of Cards parece eleição de grêmio estudantil.”

Haja coração!


Edit 10/05/2016 às 1h

Waldir Maranhão acaba de recuar de sua decisão. Provavelmente em nome da mesma Constituição e da mesma democracia que ele tentou anular o impeachment hoje no início da tarde, ele “anulou a anulação” 12 horas depois. É um fanfarrão, e o povo brasileiro não se esquecerá dessa presepada.
Se eu fizesse essa postagem amanhã, o título seria outro: Destruindo sua carreira política em 12 horas, com Waldir Maranhão.

Segue abaixo, para que conste nos anais da história.

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