CdM #1 : Inadimplência oculta

Quando Mainardi citou o aumento da inadimplência, Luiza Trajano retrucou. Era janeiro de 2014 e ela estava correta.
“Ano novo dívidas novas”, veio 2015 e com ele alguns calotes a mais. Não cito Luiza tampouco Mainardi, pois o gráfico abaixo compila os dados fornecidos pela Serasa Experian, talvez a maior base de dados para decisões de crédito e apoio a negócios disponível no Brasil.
Na coluna de hoje usarei o exemplo do Serasa, porém os fatos são aplicáveis a qualquer base de dados de proteção ao crédito no estado de São Paulo.

Inadimplência anual acumulada Serasa

Não precisa ser analista para entender o aumento na inadimplência geral, em especial o degrau que se observa em Janeiro/2015.
Coloque no mesmo caldeirão 14.25% de taxa básica de juros e um PIB retraindo quase 3%; o resultado é desemprego. Quem não tem emprego não paga contas, e os que tiveram a sorte de manterem-se empregados veem seus salários corroídos diariamente por uma inflação na casa dos 10%.
Com vários desempregados dispostos a voltar a trabalhar, muitos inclusive com bom nível de formação, o salário médio cai; pura oferta e demanda.
Entre comprar comida no supermercado ou pagar uma das 60 parcelas do carro, qual a escolha óbvia? Porém com o cartão de crédito cobrando 400% ao ano e o salário médio caindo, qual é a perspectiva futura? Calote.

Também sabemos que o preço de uma dívida é proporcional ao risco. Explico.
Se você vai emprestar dinheiro a alguém, cobrará para isso uma taxa de juros; você quer receber mais do que emprestou para compensar a inflação e ganhar um pouco com a operação. Porém antes de preocupar-se em ganhar, você quer ter a certeza de receber seu dinheiro de volta! Sem pagamento não há ganho, além do risco de você perder tudo.
Suponha que eu tenho duas pessoas me pedindo dinheiro emprestado. Uma possui vários bens e uma poupança abastada, e me promete pagar daqui a um mês. Outro está desempregado e já deu um calote no meu amigo. Cobrarei o mesmo de ambos? Lógico que não, cobrarei mais de quem tem mais chance de me dar um calote. Esse é o prêmio de risco, baseado na mais primitiva lógica de risco-retorno.
Então pergunte-se: É justo que você pague um prêmio de risco elevado porque todo mundo anda dando calotes, se você mesmo nunca atrasou um pagamento?
Eu acho que não, lojistas acham que não, o mercado acha que não, o Serasa acha que não. Mas há quem discorde.

Pela segunda vez — a primeira foi barrada por uma liminar do Tribunal de Justição de São Paulo — entrou em vigor a lei paulista nº 15.659, de autoria do deputado estadual Rui Falcão (deputado estadual e presidente do PT). Com a roupagem de “proteger” os consumidores, na verdade ela vem para atrapalhar bastante a formação das bases de dados de inadimplência e fortalecer uma das maiores marcas do atraso burocrático brasileiro, os cartórios.
Antes, se um consumidor não pagasse suas dívidas, receberia uma notificação. Após 10 dias da notificação, seu nome seria incluída na base de dados do Serasa até as devidas quitações. Demorava 10 dias para que todo vendedor no Brasil soubesse de um calote dado.
Com a nova lei em vigor um nuance foi alterado. A partir de agora a notificação precisa de atestado de recebimento (AR), cujo envio é 7 vezes mais caro e exige assinatura do receptor. Após uma eventual não assinatura do AR, o credor deve protestar o consumidor em cartório, que por sua vez enviará outra carta com AR. Só depois, então, seus dados poderão ser incluídos na base de dados do Serasa. E não acaba por aí. Para quitar a dívida, o cliente deverá ir a um cartório e pagar, além da própria dívida, uma taxa. Intermediários improdutivos e taxas, o Brasil adora!

Mas e você com isso? Como o carteiro e o cartório podem ser ignorados, a janela para aferição da inadimplência sobe de 10 para vários dias; durante esse período o inadimplente permanece oculto. Se o credor não tem base para aferir se o solicitante do outro lado da mesa é bom ou mau pagador, então o encarará como mau pagador. Lembre-se: mais dúvida, mais risco, maior prêmio de risco, logo empréstimos mais caros para todos.
Além dos atestados de recebimento e taxas cartoriais incrementam custos, que certamente serão repassados.
Graças a dificuldade de manter uma base de dados atualizada, o Serasa suspendeu a divulgação de indicadores de inadimplência por tempo indeterminado.

aviso de calote

Não é de hoje que muito governista busca maquiar os números que os avaliam, vide recentes casos argentinos. Sorte que fazer isso no Brasil é um pouco mais difícil, principalmente sob nossas circunstâncias políticas tensas e rixosas.
Leitor, conhecendo o que você conhece, será que a intenção do legislador foi proteger os consumidores, empoderar os cartórios ou trabalhar as estatísticas? A conclusão é sua.

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